Em Veneza, os mestres europeus entram em cena

Veneza começou americana demais, com filmes de estética noir ("A Dália Negra" e "Hollywoodland") e outros referentes a desastres como o furacão Katrina ("When the Leeves Broke") e o 11 de setembro ("World Trade Center"). Volta agora à praia européia, com a estréia das novas obras de dois grandes e consagrados autores, Stephen Frears e Alain Resnais. O britânico Frears traz ao Lido "The Queen" (A Rainha), sua polêmica interpretação de um fato que abalou a monarquia inglesa, a morte por acidente da princesa Diana. Em seguida, mas não por ordem de importância, a rentrée, em plena forma, de Alain Resnais, com a versão para o cinema da peça "Private Fears in Public Places" (Medos Privados em Lugares Públicos), que ele chamou simplesmente de "Coração" (Coeur), porque no fundo é desse órgão e de seus supostos atributos afetivos que trata esse belo filme. Em agitado fim de semana, Veneza viu também a animação de Kon Satoshi, "Paprika", que chegou ao Lido adulada pelo próprio diretor do festival, Marco Muller, mas se revelou decepcionante. E, com menos pompa, mas importante para nós, aconteceu a primeira sessão de "O Céu de Suely", de Karim Aïnouz, que representa o Brasil na mostra paralela Horizontes. Boa sessão, aliás, com a imensa sala Palalido lotada de um público que recebeu bem o filme brasileiro. Aplausos parcimoniosos, verdade, mas ainda assim aplausos. Mesmo porque esse segundo longa-metragem de Aïnouz é um filme em nota baixa, quase de câmara, discreto e cuidadoso em evitar clichês típicos de cinema terceiro-mundista ambientado no Nordeste. Hermila (Hermila Guedes) é a garota que volta para sua cidadezinha cearense, depois de ter vivido dois anos em São Paulo. Traz consigo o filho recém-nascido e a esperança de que o pai da criança se encontre com eles em breve. Quando isso não acontece, Hermila, já rebatizada como Suely, decide que precisa ir para o mais distante possível daquele lugar e, para isso, terá de vender o único bem de que dispõe. Sem nenhuma discurseira e sem qualquer chantagem, pela história de Hermila/Suely passa também um pouco da história do nosso Brasil e de suas contradições. Tanto Hermila Guedes como João Miguel, que já haviam trabalhado juntos em "Cinema, Aspirinas e Urubus", apresentam atuações tão discretas quanto eficazes. Uma jóia rara no cinema brasileiro, ainda tão vocacionado para o over. Grandes elencosA força dos atores e atrizes é também o segredo (ou pelo menos um deles) dos dois grandes filmes apresentados no fim de semana e que já podem ser considerados candidatos sérios para vencer o festival. Em "The Queen" é Helen Mirren quem rouba a cena no papel de Elizabeth II. Sua atuação é tão boa, tão cheia de matizes que talvez venha a criar problemas para Frears. Com tanto sutileza, o diretor pode vir a ser tachado de monarquista, como há alguns anos o diretor francês Eric Rohmer foi acusado, aqui mesmo em Veneza, de reabilitar o ancien régime com o seu "A Rainha e o Duque". Mas não é por ser inteligente e complexo que "The Queen" deixa de ser uma crítica devastadora a uma nobreza tão cheia de protocolos quanto distanciada do mundo real. A história se passa na época da morte da princesa Diana, já então separada do príncipe Charles. O recém-eleito primeiro-ministro Tony Blair (Michael Sheen) tenta persuadir a rainha da conveniência de promoverem funerais públicos, à altura da importância que Lady Di tinha conquistado junto ao público inglês. Mais ainda do que um ataque frontal à rainha, o filme é uma constatação da influência da vida midiática na condução da política. Muito sólido e bonito, o filme tem direção de fotografia do brasileiro Affonso Beato. Se em "The Queen" é o talento de Helen Mirren que sobressai, em "Private Fears in Public Places", ou simplesmente "Coração", de Alain Resnais, o destaque deve ir para o conjunto do elenco: Sabine Azéma, Pierre Arditi, Isabelle Carré, André Dussollier, Laura Morante e Lambert Wilson. O agente imobiliário Thierry (Dussollier) busca apartamento para o casal problemático Nicole (Laura) e Dan (Wilson) enquanto tenta conquistar sua colega de trabalho, a carola Charlotte (Sabine). Thierry tem uma irmã, Gaelle (Isabelle Carré) que tenta encontrar um parceiro. Lionel (Arditi), garçom do bar onde Dan afoga as mágoas, precisa de alguém que tome conta do pai inválido e encontrará essa pessoa caridosa em Charlotte. Tudo é humano, tudo é simples e, ao mesmo tempo, surpreendente. Pela segunda vez, Alain Resnais (diretor de clássicos como "O Ano Passado em Marienbad" e "Hiroshima, Meu Amor"), adapta para o cinema uma peça do britânico Alan Ayckbourn - a anterior havia sido "Smoking/No Smoking". Ao invés de lutar contra a origem teatral do texto, Resnais a aprofunda, recriando em estúdio o bairro modernoso de Bercy, ambiente frígido onde aquelas almas todas se debatem em busca de um pouco de felicidade. Resnais disse que, ao contrário de Sartre, nunca viu incompatibilidade entre cinema e teatro. Mas vê entre cinema e prosa: nunca quis adaptar um romance. Já ?o cinema e o teatro têm uma característica em comum - a impossibilidade voltar atrás e rever o que ficou para trás?, disse. O que passou, passou e ninguém pode pedir em um teatro que se repita a cena ou ao operador do cinema que volte a bobina e passe uma seqüência de novo. Malandramente, Resnais insinua que na vida também é assim. Não dá para ensaiar. Trabalhamos todos no improviso. E na corda bamba.

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