Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Em Veneza, 'Gravidade' é bem recebido, mas sem consagração

Longa de Alfonso Cuarón tem seu interesse, mas revela-se um pouco ralo

Luiz Zanin Oricchio - Enviado Especial a Veneza, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2013 | 20h15

Por fim a caixa foi aberta e mostrou-se à imprensa italiana e mundial presente no Lido a ficção científica Gravidade, de Alfonso Cuarón, que inaugura o festival na condição de fora de concurso. O longa foi bem recebido. Houve aplausos: nenhuma consagração, mas passou pelo teste da primeira exposição pública na vasta sala, a Darsena, reservada às sessões da imprensa. Muitos diretores italianos a chamam de “matadouro do Lido”, tamanhas são as reações contrárias, vaias e impropérios que lá já se ouviram e assistiram. Verdade que a crítica italiana é mais severa com as produções do seu país do que com as que vêm de fora, praticando uma espécie de nacionalismo às avessas. São, sobretudo, tolerantes com as produções norte-americanas, em especial se acompanhadas ao vivo de sua constelação de estrelas. E aqui havia duas de primeira grandeza, George Clooney e Sandra Bullock.

Eles interpretam dois tripulantes de nave espacial que se veem em meio a um acidente quando atingidos por detritos de outros objetos que orbitam a Terra. O diretor é o mexicano Alfonso Cuarón, agora em plena carreira hollywoodiana. Como tal, ele faz um trabalho que, se não deixa de ter ideias, as transforma em imagens pelo uso cerrado de efeitos especiais e do 3D. Uma palavra sobre o 3D: já foi dito que se presta muito bem a histórias de fantasia. Ora, a vida no espaço, na chamada imponderabilidade, é fantasia pura. Daí que o 3D funciona muito bem. Em especial nas situações extremas, em que astronautas perdem contato com os outros e se perdem no espaço. Mas Cuarón consegue extrair poesia de uma lágrima tridimensional que fica boiando até vir em direção ao espectador.

Na entrevista, Cuarón disse que tinha essa ideia havia muitos anos, mas fora advertido por David Fincher de que não havia tecnologia adequada para representá-la na tela. “Tivemos nós mesmos de inventar os métodos”, conta. Além disso, em seu início mesmo o projeto era fazer dois personagens interagirem numa situação de rigor extremo. “E qual situação é mais rigorosa do que estar no espaço, perdido, na ausência de gravidade?”

De fato, cria-se uma atmosfera claustrofóbica e angustiante em torno da gravidade zero. De certa forma, Cuarón inverte ideias prontas que associam valor positivo à leveza e negativo ao peso. O terror, aqui, vem, entre outras coisas, da leveza absoluta. E a redenção, se houver, será pela recuperação do peso. O clichê é posto de cabeça para baixo. Pelo menos neste caso, já que o filme não se recusa a usá-los. Pelo contrário. Inventivo, porém com DNA predominantemente comercial, Gravidade trafega direitinho pelo caminho manjado dos lugares-comuns – herói positivo capaz de sacrificar-se pelo companheiro, outro herói em crise, mas que descobre na adversidade o impulso pela vida. Sobre esse aspecto, Sandra Bullock disse que o grande desafio de todos os dias, e de todos nós, é saber por que levantar da cama e lutar. “Se não vemos grande sentido em nada, a tendência é nos deixarmos levar, abandonar tudo”, afirmou. Sua personagem, Ryan Stone, é uma médica espacial em estado de letargia depois de perder uma filha pequena. Não é, porém, a atitude passiva da personagem que mais desafiou Sandra e sim seu desempenho físico numa região de gravidade zero. “Por sorte sou bailarina, tenho bom domínio do corpo e também me exercitei bastante para o papel”, informou a atriz.

O parceiro, Matt Kowalski (Clooney), é o astronauta experiente, falastrão e boa gente. Aliás, nunca se conversou tanto na órbita da Terra quanto na primeira parte desse filme. O registro é o daquele humor americano, obrigatório, sempre a mostrar que a eficiência pode muito bem dispensar a solenidade. O reforço desse tom é que se torna cansativo. Clooney, em permanente euforia também fora das telas, riu quando lhe perguntaram se interpretava a si mesmo em Gravidade e lembrou que não estava acostumado a ar tão rarefeito. Ao lhe perguntarem como havia se preparado, respondeu: “Sandy e eu praticamos muita ioga durante o período”, comentou, rindo, claro.

Enfim, Gravidade tem seu interesse, seus bons e mesmo ótimos momentos de ação, mas revela-se um tanto ralo na condução de suas propostas. É claro que, como dizem seu diretor, produtor, roteiristas e atores, tem outras camadas de significado a serem exploradas. Mas nota-se que qualquer dificuldade ou angústia maior são evitadas para não afastar possíveis espectadores jovens. Não que ninguém venha dizer que Gravidade é o 2001: Uma Odisseia no Espaço do século 21. Ninguém merece ouvir, ou ler, uma coisa dessas. Mas dá para o gasto atual.

VENEZIANAS

Após ser roubado no trem que o levava da França para Veneza, o cineasta, roteirista e escritor romeno Razvan Radulescu cancelou a participação no festival, no qual integraria o júri da sessão Obra-prima. “Roubaram tudo, ele foi deixado quase nu”, disse o diretor do evento, Alberto Barbera.

A sessão do clássico As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi, no Campo San Polo, fez água. Literalmente. Uma chuva inclemente, e fria, caía sobre Veneza justo no horário da já tradicional projeção em praça pública e destinada aos habitantes da cidade. Muito pouca gente se animou a ficar. Restaram apenas alguns abnegados, sob guarda-chuvas, que foram recompensados por uma cópia restaurada magnífica desse que é um dos clássicos do cinema político italiano.

Por ocasião do 70º aniversário, o festival pediu a 70 diretores que fizessem mini filmes entre 60 e 90 segundos. Eles foram reunidos no longa Venezia 70 Reloaded. Três brasileiros participaram do projeto coletivo: Karim Aïnouz, Julio Bressane e Walter Salles.

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