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Em 'Uma Noite em Sampa', Giorgetti se mostra o cronista das contradições e carências de SP

Atores são precisos e sutis nas entonações

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2016 | 05h00

Com Uma Noite em Sampa, Ugo Giorgetti reafirma sua condição de grande cronista cinematográfico de São Paulo. Seus filmes se entranham nas características mais fortes da cidade, incorporam seu sotaque e mentalidade. Por serem tão locais, tornam-se universais. Todo mundo conhece a frase de Tolstoi: “Se quiseres ser universal, canta tua aldeia”.

No caso de Sampa, uma “aldeia” de 12 milhões de habitantes, 20 milhões se considerarmos a região metropolitana. Um mundo, maior que muitos países. E mundo dividido por contradições e carências sem fim. É sobre esse laboratório do caos que Ugo põe a sua lente de aumento. E o faz com precisão cirúrgica e compaixão pelos personagens.

Este deve ser um dos segredos do filme. Os personagens de Uma Noite em Sampa teriam tudo para se tornar ridículos. A maneira como são tratados, no entanto, confere a eles a dimensão da humanidade. Têm medo de todos e de si mesmos. Vivem assustados, inseguros, são cheios de si, preconceituosos e, no limite, podem se tornar agressivos. São como qualquer um de nós. Estamos neles, embora possamos rir deles.

Como rimos de nós mesmos, caso tenhamos desenvolvido o dom saudável da autoironia.

Como opção estética, Ugo opta pela concentração do foco. Pode ter sido medida de economia em tempos difíceis, como diz na entrevista. Mas o fato é que tal minimalismo produz resultados expressivos em sua concentração. Os diálogos são agudos, nunca exibicionistas. As pessoas falam como qualquer um de nós, e Ugo se vale aqui da facilidade que tem em transcrever o coloquial. É mais difícil do que se pensa e precisa-se ter ouvido de músico para escrever “como as pessoas falam”.

O outro foco é o dos atores, também precisos, sutis nas entonações.

Gente de palco, que conhece nuances das palavras, sutilezas contidas na mais despretensiosa conversação. Desse modo, um texto simples se enriquece pela maneira como é dito. Por fim, um destaque para a fotografia de Walter Carvalho, que encontra vivacidade no tom escuro e necessariamente noturno dessa incisiva fábula sobre o medo.

 

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