Em uma lista sem surpresas, '12 Anos de Escravidão' é favorito

Com nove indicações, uma a menos que 'Gravidade' e 'Trapaça', filme trata de tema delicado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2014 | 13h34

Nenhuma surpresa maior nas indicações do Oscar: Trapaça e Gravidade lideram nas indicações, com dez cada um, mas quem deve levar o prêmio principal é 12 Anos de Escravidão, indicado em nove. Fica de fora das categorias principais o filme americano mais inteligente do ano - Inside Llewin Davis - Balada de um Homem Comum, dos irmãos Coen, com seu anti-herói ambivalente que deve ter parecido ultrajante para a quase sempre careta Academia de Hollywood. Concorre apenas a fotografia e mixagem de som. Pior para a Academia. 

Independentemente de sua tendência conservadora, a Academia aprecia os grandes temas, e o que se agora impõe é rememoraração da vergonhosa história da escravidão. Ano passado, com Django Livre, de Tarantino, e Lincoln, de Spielberg. Neste, com 12 Anos de Escravidão, do diretor britânico negro Steve McQueen. Ele tem essa vantagem, de estar do bom lado da coisa. 

Nos seus calcanhares, o superestimado Gravidade, de Alfonso Cuarón (também indicado como melhor diretor, a exemplo de McQueen), uma ficção científica meio banal que chegou a ser comparada a 2001- uma Odisseia no Espaço por gente de memória curta. É bom filme, sem dúvida, mas talvez permaneça na estratosfera, sem aterrissar no dia da premiação, 2 de março. Em todo caso, Cuarón recebeu o Globo de Ouro, que insistem em classificar como prévia do Oscar. 

Trapaça, de David O. Russell, seria uma boa aposta alternativa. É uma deliciosa comédia sobre pilantras obrigados a prestar serviço ao FBI para atenuar suas penas. Mas, como se sabe, comédias não costumam fazer a cabeça dos votantes. Ainda mais quando, como neste caso, trata-se de uma comédia corrosiva a respeito dos Estados Unidos, do culto ao dinheiro e da convivência comprometedora entre bandidos, mocinhos e homens da lei. Comédia de adulto, em suma, e com ótimo elenco, todos candidatos a prêmios em suas categorias - Bradley Cooper, Amy Adams, Christian Bale e Jennifer Lawrence.  

Também cômico, mas puxado para o sarcasmo, é O Lobo de Wall Street, um Scorsese de boa safra com Leonardo DiCaprio disputando a estatueta de ator. Claro que Scorsese é mais diretor que a soma de todos os outros juntos, mas deve sofrer um bocado pela maneira como retratou seu personagem, um picareta do mercado de capitais. Como hoje se toma tudo literalmente (Machado de Assis sofreria se escrevesse para o público contemporâneo), muita gente entende que o especulador-bandido é pintado de maneira glamourosa e mesmo cúmplice. Bem, é preciso dizer com todas as letras: essa é uma interpretação obtusa, ainda mais se tratando de uma obra de Scorsese, homem de formação católica, sempre às voltas com a culpa e a ética. Mas assim é a vida. E o filme é ótimo.

Blue Jasmine, o melhor Woody Allen em anos, pode dar o Oscar a Cate Blanchett por sua irretocável grã-fina caída em desgraça depois que o marido, um especulador, vai preso e perde tudo. Aliás, é mais um filme sobre a especulação financeira, que jogou os Estados Unidos e a Europa na crise, em 2008, e continua aí, intocável. Mas Blue Jasmine não estar entre os nove (!) indicados a melhor filme, e Woody não aparecer entre os cinco diretores é um escândalo. Enfim, para quem ainda consegue se escandalizar com essas coisas. 

Para terminar, duas palavras sobre categorias nas quais o Brasil poderia estar presente. Como "filme estrangeiro" não vejo páreo para o italiano A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, um estudo esfuziante sobre a decadência, como só os europeus sabem fazer. Afinal, têm prática no assunto, decaem desde a queda do Império Romano sem jamais chegarem ao fundo, e são considerados o ápice da civilização, mesmo tendo arrastado o resto do planeta a duas guerras mundiais no século passado. O nosso O Som ao Redor não faria feio nessa disputa, que inclui também Alabama Monroe (Bélgica), A Caça (Dinamarca), Omar (Palestina) e The Missing Picture (Camboja). 

A outra categoria é animação, que tem como favorito Vidas ao Vento, do mestre japonês Hayao Miyasaki. Resumindo vinte anos da vida do seu país, contados pelo inventor de um avião de caça usado na 2ª Guerra, o filme é capa da revista Cahiers du Cinéma deste mês e concorreu no Festival de Veneza do ano passado. É grande obra, talvez o canto do cisne de Miyasaki, que já anunciou aposentadoria. O brasileiro Uma História de Som e Fúria, de Luiz Bolognesi, ficou fora.  

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