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Em 'Um Toque de Pecado', Jia Zhang-Ke toca em tema universal

Todas as histórias, segundo o diretor, são tiradas da crônica policial

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2013 | 18h29

Das quatro histórias que compõem Um Toque de Pecado, Jia Zhang-ke costuma citar uma, real, que, divulgada, produziu enorme indignação na China. A da moça, confundida com uma prostituta, que recusa os avanços de um cliente de bordel e é por ele esbofeteada com um maço de cédulas de dinheiro.

Não é nem de longe a sequência mais violenta do filme. Mas é, talvez, aquela que melhor simbolize a China contemporânea e sua aliança entre governo autoritário no plano político e capitalismo selvagem, no econômico. Os valores maiores são jogados na lata de lixo quando alguém se dá ao direito de esbofetear uma mulher com dinheiro. Na verdade, essa foi uma bofetada em todo o país e o alcance simbólico não escapou ao cineasta, o mais bem equipado retratista das grandes transformações por que passa a China.

Todas as histórias, segundo Zhang-ke, são tiradas da crônica policial, ramo do jornalismo que sempre alimentou a ficção, já que atento ao que existe de mais verdadeiro e sórdido na realidade humana. Para dar um exemplo nacional, Nelson Rodrigues, nosso principal dramaturgo, inspirou-se fartamente do noticiário policial, que ele exerceu no jornal do pai, quando jovem.

Enfim, são histórias de sangue que servem de mote a Zhang-ke. Na primeira, um trabalhador revolta-se contra os desmandos dos dirigentes locais e transforma-se em serial killer. Noutra, um triângulo amoroso termina de maneira sangrenta. Em uma terceira um homem aceita uma série de trabalhos degradantes para pagar uma dívida. E há a história das bofetadas com cédulas de dinheiro.

Claro, em torno desses casos, circula muitas vezes a paixão, em seus aspectos às vezes mais crus. Mas, no mais das vezes, o que se vê é a interferência do dinheiro no relacionamento entre as pessoas. Na China pragmática pós Mao-tsé Tung, o dinheiro manda. Bem visto, Um Toque de Pecado é uma tragédia sobre o dinheiro. Sobre o “poder corrosivo” do vil metal, de que falava Marx. O dinheiro, o culto do deus mercado, vem produzindo uma série de desastres registrados por Jia Zhang-ke. Por exemplo, os desastres ecológicos e humanos que ele descreve no estupendo Em Busca da Vida, sobre a diáspora de moradores devida à construção de uma gigantesca hidrelétrica, cujo lago inundou várias cidades. Ou, em Memórias de Xangai, sobre as transformações e descaracterização da grande cidade chinesa.

De qualquer forma, nunca antes Zhang-ke havia se aproximado desse tema-tabu de uma sociedade pseudossocialista – os desequilíbrios da apropriação da riqueza e suas consequências na vida das pessoas. Assim, o potencial serial killer é um pobre trabalhador que frequentou a mesma escola de um bilionário, agora dono de um jatinho particular. A prostituição que prospera em diversos nightclubs destinados a visitantes estrangeiros, com os bolsos cheios de dólares, está na origem de um caso de suicídio documentado por Jia Zhang-ke.

Essa temática é tratada com todo impacto de que Jia Zhang-ke se mostra capaz desde que surgiu no horizonte da cinematografia mundial no início dos anos 2000. É um construtor de imagens nunca banais, cineasta senhor do ritmo da narrativa, do trabalho potente com os personagens e com uma coragem analítica que encontra poucos rivais na cinematografia contemporânea. Essas qualidades o tornam também universal. Se as histórias que conta são profundamente chinesas, elas não deixam também de comentar o nosso mundo como um todo.

Sabemos que é o dinheiro que manda e sabemos que, quando o dinheiro manda, os seres humanos valem muito pouco, ou nada, qualquer que seja a fantasia que alimentemos. Tudo isso é evidente. Mas, quando essa evidência é transformada em obra de arte, ela nos faz pensar pois nos atinge na parte mais sensível, que não é o bolso como dizia um economista cínico, mas a nossa emoção. 

UM TOQUE DE PECADO

Título original: Tian Zhu Ding. Direção: Jia Zhangke.

Gênero: Drama (China/2013, 133 minutos). Classificação: 14 anos. 

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