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Em tom soturno, segundo episódio de 'O Hobbit' fala da cobiça

Longo, filme tem bons momentos e deve seduzir fãs da franquia

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2013 | 03h00

As qualidades de O Hobbit – A Desolação de Smaug são as mesmas dos outros filmes da franquia. Assim como seus problemas. Belo visual, ambiente mágico, algumas presenças carismáticas. Por outro lado, redundância, a excessiva duração, o circuito temático cifrado, o que torna essas produções privativas dos fãs do universo de Tolkien, revisto por Peter Jackson. Quem não participa ou adere por antecipação a esse mundo tem muita dificuldade para entrar na história. Se é que entra.

Daí as críticas à série do Senhor dos Anéis poderem ser divididas entre internas e externas. Como em política, esquerda e direita dificilmente se mostram conciliáveis, também no que diz respeito à franquia Jackson, é muito complicado conseguir algum ponto de encontro entre adeptos e indiferentes. Entre integrados e apocalípticos, para usar a linguagem de Umberto Eco. Os primeiros deliciam-se de modo acrítico. Os segundos, considerados intolerantes, ignorantes ou alienados pelos primeiros, tendem a chatear-se mortalmente com esses filmes.

E, no entanto, eles, os filmes, podem ser considerados como expressão de uma certa necessidade de magia num mundo mercantil e desencantado como o nosso. Além do mais se apoiam numa tradição respeitável, a de J. R. R. Tolkien, que, queiramos ou não, teve a capacidade de inventar um universo próprio dentro da ficção de fantasia. Quem quiser de forma obsessiva apelos para o real, já entra nessa dimensão com o pé esquerdo.

Mesmo assim, pode-se dizer que este segundo episódio de O Hobbit (o terceiro vem em 2014) pode ser visto como uma história da cobiça. Não por acaso, um dos personagens diz que não gosta dos anões porque eles são “greedy”, cobiçosos. Mas vai ajudá-los em sua missão porque detesta ainda mais seus oponentes, os maléficos orcs. Quer dizer, raciocina naquela base de que quem é inimigo do meu inimigo passa a ser meu amigo.

Além do mais, a busca é por um tesouro escondido na montanha e vigiado pelo temível dragão que está no subtítulo, o tal Smaug, um prodígio da tecnologia digital. Mesmo o nosso hobbit, o Bolseiro, carrega consigo o anel furtado ao Gollum, que o safa de não poucas dificuldades. Em suma, na luta entre o bem e o mal, existe a cobiça a tentar os bons e seduzi-los pelo outro lado da força, para usar a linguagem de outra franquia, a de Guerra nas Estrelas.

As diferenças entre as duas são muitas, e não cabe aqui enumerá-las. Nem interessa muito. Mas o que ressalta, apenas para ficar em um aspecto, é que Lucas mantém o senso de humor enquanto Jackson continua tenso com seu trabalho, como se estivesse gestando alguma grande revelação filosófica que não pudesse ser perturbada por alguma anedota ou ironia. Tudo, de modo geral, é sério demais, o que só faz aumentar o tédio dos não adeptos.

De qualquer forma, mesmo estes encontram algum conforto na presença (e, em especial no inglês clássico) do mago Gandolf, vivido por Ian McKellen. Bilbo (Martin Freeman) continua com seu ar habitual de estupor, mas a elfa Tauriel (Evangeline Lily) é uma gracinha. A ponto de ser cobiçada por Orlando Bloom, o Legolas. Mas, desconfio que a grande atração será mais uma vez o vilão virtual. Assim como Gollum havia roubado a cena episódios atrás, agora é a hora e a vez do dragão Smaug e sua voz soturna, a de Benedict Cumberbatch.

Smaug é grandalhão mas ágil, e, dada a sua natureza de monstro virtual, não carrega os inconvenientes da gravidade. Pode voar, esgueirar-se por corredores e dormir tranquilamente sob um mar de moedas de ouro e de lá sair lépido, pronto para atacar quem o desafie. Solta fogo pelas ventas e também pela boca, como bom dragão que é. E proporciona uma daquelas lutas épicas que fazem da franquia Tolkien/Jackson aquilo que ela no fundo é: muito purê mitológico em sua base mas dependente total da cobertura de filme de ação sem a qual o público não se move em direção ao cinema.

Filme-pipoca, de qualquer forma O Hobbit – A Desolação de Smaug desafia algumas características do cinema comercial de rotina. É longo demais, o que encanta admiradores, mas afasta recalcitrantes, além de representar uma dor de cabeça para os donos de salas de cinema, que gostam de filmes de hora e meia, hora e 40. Dá para compor a grade e permitir um tempo entre as sessões para que se comprem bebidas e guloseimas na bonbonnière. O Hobbit tem duas horas e 40 minutos. É muita coisa. Só Visconti deveria ter licença para fazer filmes desse tamanho.

Além do mais, nem tudo em O Hobbit é a vertiginosa montanha-russa do seu longo desfecho. Há pausas e quebras de ritmo entre as cenas de ação. Não que então a história se torne reflexiva, ou profunda, mas dá-se um tempo para que o espectador areje seus neurônios e possa contextualizar o que está vendo. Mesmo porque existe um certo didatismo explícito neste exemplar da série. Por exemplo, a ênfase das palavras “precioso” ou “preciosidade” em relação ao anel, para relembrar como a ele se referia o Gollum. E também que este objeto mágico dá ao possuidor vantagens não negligenciáveis, o que transforma em fonte de cobiça, termo que está em toda parte dessa parábola da luta pelo poder.

Como a aventura tem de continuar, mesmo os fãs mais ardentes podem ficar com um certo retrogosto meio decepcionante ao final. Mas fã que é fã sabe esperar. A série, pelo jeito, é interminável.

 

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