Niko Tavernise/Netflix
Niko Tavernise/Netflix

Em tom de comédia, ‘Não Olhe para Cima’ vê absurdo do apocalipse e alerta para o clima

Longa conta com uma constelação de astros e estrelas de Hollywood para falar de asteroide prestes a colidir com a Terra

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão 

14 de dezembro de 2021 | 05h00

Tirando a atuação, a maior paixão de Leonardo DiCaprio é o meio ambiente. Ele criou uma fundação que leva seu nome em 1998 para falar de consciência ambiental e distribuiu milhões de dólares para combater desastres naturais e a crise climática e promover a biodiversidade e fontes renováveis de energia. Então, foi sem pestanejar que ele aceitou o papel do cientista Randall Mindy em Não Olhe para Cima, dirigido por Adam McKay (A Grande Aposta, Vice), que estreou na semana passada nos cinemas brasileiros e chega no dia 24 de dezembro à Netflix. “Eu estava procurando um filme sobre esse assunto fazia décadas”, disse o ator em entrevista coletiva, por videoconferência. 

DiCaprio é só um dos nomes do elenco estrelado. No longa, uma candidata ao PhD, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), descobre um novo cometa. Mas, junto com seu professor Randall Mindy (DiCaprio), Dibiasky também percebe que o asteroide que agora leva seu nome não apenas é gigante como está em rota direta de colisão com a Terra. O impacto destruirá o planeta. Os dois, mais o Dr. Clayton Oglethorpe (Rob Morgan), do Escritório de Coordenação da Defesa Planetária da Nasa - que, sim, existe de verdade -, vão até a presidente Janie Orlean (Meryl Streep) para alertá-la sobre o problema. Mas nem ela nem seu principal assessor, que não por acaso é seu filho Jason (Jonah Hill), dão importância. “Tive muitas pessoas em quem me inspirar, porque teve tanta gente absurda e sem vergonha que se colocou em espaços públicos nos últimos tempos”, disse Streep. “Ela só se preocupa com poder, dinheiro, cabelo bonito e unhas bem-feitas.”

Parte da imprensa também não leva o assunto a sério, como os apresentadores do programa matinal interpretados por Cate Blanchett e Tyler Perry. E tudo piora quando um magnata da tecnologia Peter Isherwell (Mark Rylance) envolve-se na questão apenas por ser bilionário e um dos doadores para a campanha da presidente. O elenco tem ainda Ariana Grande e Scott Mescudi (também conhecido como Kid Cudi).

Metáfora

O apocalipse causado por um cometa é, na verdade, uma metáfora para a emergência climática que acontece no momento. Mas o filme tem um registro de comédia do absurdo. “A crise climática é um tema pesado e provavelmente a maior ameaça à vida humana na história, o que nos coloca em uma posição defensiva, como se um animal estivesse nos atacando”, disse McKay, que escreveu o roteiro baseado em argumento do jornalista David Sirota. “Depois dos últimos cinco anos loucos que tivemos neste planeta, o sentimento era: não seria bom podermos rir de tudo isso? É um assunto sério, mas achei que a risada poderia oferecer distanciamento e ser um elemento unificador. Não dá para fingir uma risada.”

Os únicos que não acham graça em nada disso são Dibiasky, que não esconde sua raiva, e Mindy, que até tenta trabalhar dentro do sistema, quase sendo engolido por ele. “Eu adoro como eles são retratados”, disse DiCaprio, comparando Dibiasky com Greta Thunberg. “Sou grato de poder interpretar uma pessoa baseada em tantas que encontrei na comunidade científica, em especial cientistas do clima que tentam comunicar a urgência desse tema e sentem-se relegados ao pé da página no jornal.” 

A chegada da covid-19 evidenciou ainda mais como acreditar na ciência virou posição política e como os “fatos alternativos” tomaram conta da narrativa. “Por isso é um filme tão importante de fazer neste momento”, disse DiCaprio. Jennifer Lawrence concordou. “É frustrante ver pessoas que dedicaram sua vida a conhecer a verdade serem desprezadas porque ninguém gosta da verdade que elas têm a dizer.”

Em um discurso, o Dr. Mindy fala de como nem tudo o que fizemos precisa ser charmoso, inteligente, positivo. “Porque às vezes temos de poder falar as coisas como elas são”, disse McKay. Para Tyler Perry, o filme soou muito parecido com a realidade em vários momentos, em especial na cena no Salão Oval da Casa Branca em que a presidente e seu filho desprezam os fatos e a ciência. “Era exatamente o que estava acontecendo, especialmente na época da filmagem, com a pandemia sendo tratada como sem importância.” 

Meryl Streep ficou chocada quando os personagens de Perry e Blanchett, em meio ao fim do mundo, decidem que só querem beber e falar mal dos outros. “Porque tem muita gente assim”, disse. Para ela, passou da hora de a humanidade entender o perigo da emergência climática. “Porque é uma ameaça a todos nós. Se nós não sobrevivermos, não importará se você é rico ou pobre.” DiCaprio acredita que é dever de artistas como ele mudar a narrativa. “Precisamos criar o debate. Então é uma honra fazer parte deste longa”, disse. 

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