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Em 'Táxi Teerã', diretor pratica a arte da liberdade possível

Longa recebeu o Urso de Ouro em Berlim ao dar provas de como a arte pode resistir à opressão de Estado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2015 | 03h00

Como poderia ter dito Ortega y Gasset, há o filme e sua circunstância. Como se sabe, o diretor iraniano Jafar Panahi foi condenado à prisão pelo regime do seu país. Não pode viajar para o exterior, esteve em prisão domiciliar durante algum tempo, não pode filmar ou escrever roteiros. O regime não gosta dele. Já os outros gostam. Panahi é premiadíssimo. Já ganhou o Leão de Ouro em Veneza (com O Círculo) e, com este Táxi Teerã, descolou o Urso de Ouro no último Festival de Berlim. 

Desse modo, a premiação de Berlim soou mais como ato político do que como escolha estética. Ao conceder o prêmio máximo a Panahi, o júri estaria desagravando um grande cineasta perseguido por suas ideias políticas. Mais ainda: ao lhe dar destaque internacional, Berlim estaria, de certa forma, protegendo o artista, fazendo com que a perseguição a ele se tornasse mais cara, do ponto de vista diplomático, para o regime de Teerã.

Mas e a obra em si? Ela é, antes de tudo, um ato de resistência. Aliás, o terceiro ato. Antes, Panahi já havia filmado Isto Não É um Filme (2011) e Cortinas Fechadas (2013), testemunhos de sua situação particular, mas também de um estado geral de coisas no Irã. Nesse terceiro longa dessa trilogia do isolamento, Panahi dirige um táxi pelas ruas de Teerã. Diversos passageiros entram e saem do veículo. Um homem com ideias truculentas a respeito de criminosos discute com uma mulher de pontos de vista liberais. Depois, Panahi socorre alguém que foi atropelado e que, sentindo-se à morte, resolve gravar o testamento no interior mesmo do veículo. Em seguida, é a própria sobrinha de Panahi que entra no carro. Há também um vendedor de DVDs piratas que sustenta fazer um trabalho cultural ao franquear aos iranianos obras que, de outra forma, lhes seriam inacessíveis. Por fim, entra no carro uma advogada que confronta o governo de forma muito contundente. 

Do ponto de vista cinematográfico, Táxi Teerã assume opções bastante simples. Há o motorista, que é o próprio diretor. As câmeras são instaladas no interior do veículo e captam imagens tanto de Panahi como de seus passageiros. Estes representam diversas amostras da sociedade iraniana: os duros, associados ao regime, os que tentam burlá-lo pelas bordas, os que o confrontam de maneira aberta, o olhar infantil, que tende a ver claro porque é despido de preconceitos. 

Panahi é hábil em explorar as possibilidades dramáticas da situação e dar-lhe ares de falso documentário. Outro iraniano - o grande Abbas Kiarostami - teve a sacada de situar filmes no interior de automóveis. Percebeu que, num mundo em que cada qual parece absorto em si mesmo, o carro havia se transformado num raro espaço de convivência em que as pessoas encontram tempo para conversar. Os carros são herdeiros da carruagem, genialmente usada por John Ford (em No Tempo das Diligências) e retomada por Ettore Scola (em Casanova e a Revolução). 

Panahi é observador dessa amostragem que viaja em seu táxi, e que indica uma sociedade ativa e diversificada. Ato de resistência, Táxi Teerã dá provas de esperança. Sugere que, por maiores que sejam os controles do Estado, existem frestas a ocupar e maneiras de driblá-lo. Ilustra uma arte do enfrentamento, a estratégia do fraco a minar a aparente solidez monolítica do forte.

 

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