Em seu filme, Alceu Valença constrói um universo mágico

Exibido em Gramado, ‘A Luneta do Tempo’, dirigido pelo músico, traz o mito do cangaço, ação, tiroteios e música de ópera

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 19h15

GRAMADO - Há um momento de A Luneta do Tempo em que Cauby Peixoto canta no rádio, no filme de Alceu Valença. Depois, nos créditos, estão listadas 57 músicas na trilha que ele próprio criou, mas não aparece o nome do ídolo da música romântica. Na coletiva, Valença não precisou nem explicar. Ele cantou exatamente como Cauby no filme. Letra, música e voz são dele. Não é a menor das surpresas de A Luneta do Tempo. Um pouco influenciado por Glauber Rocha, e por Sérgio Ricardo - o compositor de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que o dirigiu em A Noite do Espantalho -, Valença viaja na brasilidade.

É um barroco. E um louco que fala compulsivamente. Há método na sua ‘loucura’, como na de Glauber. Explicou que A Luneta foi o filme que quis fazer por 14 anos. Há 10, decidido de que deveria dirigir, começou a estudar cinema. Na quarta-feira à noite, ao apresentar seu filme, ele disse, no palco do Palácio dos Festivais, que tinha uma boa e uma má notícia. Começou pela má, a morte do presidenciável Eduardo Gomes, a quem apoiava. Saudou o homem, o político, o administrador como exemplares. A boa nova foi que, finalmente, estava mostrando A Luneta.

O filme tem uma primeira parte deslumbrante. Lampião e Maria Bonita, Irandhyr Santos e Hermila Guedes. O mito do cangaço, ação, perseguições, tiroteios e uma música de ópera. Só que Valença não é nem quer ser Sergio Leone, que esticava as cenas ao som da música de Ennio Morricone. Quando o espectador começa a viajar na beleza visual e sonora, ele corta. As cenas não duram tanto quanto talvez devessem, para o deleite estético. É estilo, mas essa descontinuidade - que se cria - não deixa de remeter a Glauber. Valença soma o circo, o cordel, e cria um universo mágico - uma nova caravana Rólidei - permitindo que seu filho Ceceu, como dono do circo, roube a cena. Impossível, dirá o leitor. Ninguém rouba a cena de Irandhyr Santos. Espere para ver e depois a gente conversa.

O 42.º Festival de Cinema Brasileiro e Latino encaminha-se para o final. Hoje, serão exibidos os últimos longas concorrentes. Amanhã à noite, ocorrerá a premiação. Temos tido bons filmes brasileiros, bons filmes latinos, os ‘estrangeiros’. Do Chile veio Las Analfabetas, de Moises Sepúlveda, com Paulina García, a Glória do filme de mesmo nome. As Analfabetas baseia-se numa peça que Paulina e Valentina Muhr representaram no teatro por mais de dois anos. O diretor não se importa que se diga que seu filme é teatral. Existem sutilezas dentro dos planos longos. Uma construção do olhar, uma maneira diferente de Paulina e Valentina se moverem e que é diferente do teatro.

Las Analfabetas não chega a ser bom como El Critico e Esclavo de Dios, os mais fortes concorrentes estrangeiros, até agora. Mas algo ali hay. Uma vontade de discutir carências. Uma mulher não sabe ler nem escrever. A outra, mais jovem, que pretende ensiná-la, é analfabeta afetiva. Tem sido um tema forte aqui em Gramado. A carência afetiva, como um espelho torto das relações no mundo (pós)moderno, que vive de aparências.

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