Sergio Castro|Estadão
Sergio Castro|Estadão

Em São Paulo, Louis Garrel lança o filme 'Dois Amigos'

Ator e diretor diz que o amor, mais que o triângulo, é sua ligação com François Truffaut

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2015 | 19h38

Os comentários eram preocupantes. Louis Garrel teria deixado de fumar e estava irritadiço. Teria até discutido com a namorada, Laetitia Casta, que o acompanha na viagem ao Brasil, onde lança o primeiro longa como diretor. Dois Amigos estreia na quinta-feira, 3. Foram alarmes falsos. Garrel realmente deixou de fumar e passou o tempo todo das entrevistas – a coletiva, mais a individual, ontem, na Reserva Cultural – tirando fumaça de seu cigarro eletrônico. Mas estava descontraído. “Nos últimos dias, como todos os franceses, andava fumando demais. Os acontecimentos em Paris consumiram nossos nervos. Cheguei aqui (no Brasil) e só encontro gente feliz. Resolvi parar de fumar”, ele explica.

Por onde tem andado Louis Garrel, o belo, em suas andanças paulistanas? Porque aqui também, e por causa da situação política, as pessoas andam com os nervos à flor da pele. “Ah, bom. Não percebo”, ele insiste. Embora seja seu primeiro longa, Dois Amigos foi precedido por três curtas. Ele cita Alfred Hitchcock, que dizia que, no cinema, não faz mal partir do clichê. O problema é ficar nele. Para evitar isso, Garrel chamou o amigo Christophe Honoré, seu diretor em vários filmes, para escrever com ele o roteiro. Pois o ponto de partida, até certo ponto, é batido – dois homens se envolvem com a mesma mulher. Lembra alguma coisa? Talvez Jules e Jim/Uma Mulher para Dois, de François Truffaut?

“Pensei muito em Truffaut, mas pensei na sua maneira de focar o amor, não necessariamente no triângulo. Jules e Jim termina como tragédia. Meu filme é mais leve. Acho até que sua pegada é mais próxima do triângulo de (Jean-Luc) Godard em Uma Mulher É Uma Mulher.” Golshitfteh Farahani faz uma presidiária que sai todo dia da cadeia para trabalhar. Vincent Macaigne quer namorá-la, ela não quer. Ele pede ajuda ao amigo Louis. Forma-se o triângulo e a vida da presidiária complica-se.

Para o diretor, Dois Amigos “é um filme feminino sobre o masculino”. Os amigos são frágeis. “Queria falar dessa geração de 30 anos (a dele) que se recusa a assumir responsabilidades.” Na tela, Louis nega até o fim que tenha traído o amigo. Numa cena, seu personagem flerta com um gay. Qual o problema? “Sou 100% hétero e 49% gay”, brinca. Filho do diretor Philippe Garrel e neto do ator Maurice Garrel, diz que o avô foi sua principal influência. “Me ensinou que, para ser ator, precisava estudar, me dedicar.” Cursou arte dramática, mas não fez seu bac (o vestibular da França). Quando ganhou o Oscar francês de melhor espoir (esperança), comemorou – “Mamãe, não tenho bac, mas tenho César”.

Dois Amigos começou a nascer quando tinha 15 anos (está com 32) e fez a peça Les Caprices de Marianne. “Descobri depois que também foi a inspiração para A Regra do Jogo, de Jean Renoir”, conta. O filme é impregnado pelo espírito da nouvelle vague – pela liberdade de tom de Godard e Truffaut –, mesmo que Garrel se sinta mais próximo de Leos Carax e de outros autores franceses mais ‘contemporâneos’. Seu tema é o amor, mas há um subtexto político. A presença da iraniana Golshifteh não é por acaso. “Queria uma atriz não francesa que passasse a ideia de um corpo, de um desejo internacional.” Golfishteh foi banida pelo regime iraniano. Aparece nua, no começo. “Foi coisa dela. Uma atitude política. Uma declaração de independência.”

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