Divulgação
Divulgação

Em 'Samba', trio de 'Intocáveis' volta com humor e romance sobre outro tema grave

Longa traz Charlotte Gainsbourg e Izïa Higelin no elenco

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2015 | 02h30

Maior sucesso do recente Festival Varilux do Cinema Francês, Samba trouxe ao Brasil a dupla de diretores Eric Toledano e Olivier Nakache. Ambos arrebentaram nas bilheterias de todo o mundo com um filme que virou fenômeno, e no País, transposto para o teatro, como peça, está repetindo o êxito - Intocáveis. Samba repete a parceria de Toledano e Nakache com Omar Sy, que faz, no filme anterior, o papel que Ailton Graça repete com tanta graça no teatro. Sy faz agora um ‘sans papier’, um imigrante ilegal, e o filme trata com humor um tema da maior pertinência na França - a questão dos excluídos. A essa altura, você já se perguntou - o que o título tem a ver com o Brasil?

Samba baseia-se num livro de Delphine Coulin, Samba pour la France. No Brasil, foi editado só como Samba. Os diretores tomaram liberdades em relação ao original. Transformaram em brasileiro um outro imigrante da trama, e ele é interpretado por Tahar Rahim, o Profeta de Michel Audiard (leia entrevista). No Rio, na entrevista que deram ao Estado, Toledano e Nakache reconheceram que os 20 milhões de espectadores que fizeram com Intocáveis foi algo fora de série, e por isso mesmo difícil, senão impossível de reproduzir. Mesmo assim, declaram-se muito satisfeitos com os 3,5 milhões de espectadores que Samba fez na França. Estavam muito curiosos - ansiosos, mesmo - com a acolhida que o filme teria no Brasil. No Rio, Samba foi aplaudido em cena aberta, durante a projeção, em dois ou três momentos.

Sy é uma força da natureza, mas é melhor representando em francês. Seu inglês é macarrônico e o personagem também não ajuda muito em outro fenômeno de bilheteria, atualmente em cartaz no Brasil - Jurassic World. De volta a Samba, Sy faz um imigrante do Senegal que há dez anos vive clandestino na França. A luta de Samba Cissé, seu nome, é por papéis, ou seja, por documentos que lhe garantam estabilidade no país. Samba se envolve com Charlotte Gainsbourg, como uma executiva cuja vida pessoal e profissional está sendo destruída pela estafa que produz surtos de pânico. Essas duas personagens vão iniciar uma ligação improvável, mas não impossível. O final inclui um elemento de surpresa, um twist, como se diz. E, sim, o filme tem Tahar Rahim como o amigo e parceiro de Samba.

Toledano e Nakache trabalham com o humor, mas não inconsequente. Para eles, a comédia é uma forma perfeitamente legítima de fazer crítica. O plano-sequência que abre Samba é exemplar. Uma festa, a câmera percorre os ambientes, vai descobrindo as pessoas e chega à cozinha, onde um sujeito obviamente deslocado lava pratos. A festa, a exclusão. Só nesse movimento inicial já se flagra um desejo dos diretores - expor um quadro humano e social. A França dos excluídos está no filme de Jacques Audiard, Dheepan, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em maio, e na retrospectiva de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval que começa na semana que vem no Cinesesc. Está em Samba, e o tio de Omar Sy, no filme, é um personagem bem desenhado. Ele conseguiu seus documentos, vive na legalidade, mas é tanto ou mais solitário que o sobrinho que vive fugindo da polícia.

O filme é bom, é divertido, é simpático. Tem momentos que tratam com leveza situações que o espectador já viu em outros filmes, e de outra(s) forma(s). O problema do imigrante não atinge só o africano. Toca o iraniano, o russo. Os interrogatórios no serviço de Migração são divertidos, mas aquilo de que o espectador ri pode ser motivo de drama (e até tragédia). O que, de certa forma, limita o alcance de Samba é a virada de Toledano e Nakache pela comédia romântica - o envolvimento de Sy e Charlotte. Existem outros envolvimentos, incluindo o de Sy com outra mulher e que vai colocá-lo em rota de colisão com um antigo amigo. E existe o personagem do brasileiro.

Carnaval, futebol, praias, belas mulheres, capoeira. Existe, no imaginário do estrangeiro, uma referência do Brasil, que pode ou não ser real. Toledano e Nakache enchem a trilha de Samba de Gilberto Gil, Jorge Benjor. Misturam Bob Marley, mas tem gente que jura - brincadeirinha - que a alma do jamaicano era baiana. O problema é que o brasileiro de Tahar Rahim é uma fantasia. Sua função é fazer com que o público ria. Ele é o Cupido de Sy e Charlotte. É alegre demais. Numa cena, provoca alvoroço num escritório repleto de mulheres ao dançar sensualmente no andaime que divide com Sy, quando ambos lavam as paredes de vidro do prédio. Rahim, como um estereótipo, termina estabelecendo o limite de Samba. O filme mira alto - na entrevista ao Estado, os diretores destacaram a seriedade da pesquisa de Delphine Coulin sobre os imigrantes -, mas fica no meio do caminho. Atenua a questão da exclusão. Talvez ganhe em comunicabilidade, mas perde em relevância.

ENTREVISTA - Tahar Rahim, ATOR

'Meu sucesso com as mulheres? Sinto muito, mas nem percebo'

Por onde Tahar Rahim passa, seu sucesso com as mulheres é inegável. Como o Profeta, no drama de Jacques Audiard, ele esculpiu uma persona muito forte no imaginário do público. No Rio, explicou como foi fazer o brasileiro de Samba.

No livro, o personagem tem outra origem. Como fez para abrasileirá-lo?

Segui o roteiro, e tive um coach (treinador) para o sotaque. Funcionava na hora, mas meu português se resume a ‘obrigado’.

O Profeta foi um personagem muito forte. Como o fez?

Foi tudo muito rápido. Trabalhava como garçom, queria ser ator. Fiz um teste, Jacques (Audiard) me selecionou. Simples assim. E minha vida mudou.

Como você viu a vitória de Jacques Audiard em Cannes, onde Dheepan ganhou a Palma de Ouro, em maio?

Não teria ficado mais contente se O Profeta tivesse ganhado. Jacques faz com que a gente se sinta parte de uma família. Ele agrega, integra as pessoas. É um grande artista e um homem em sintonia com o mundo. Os irmãos Coen entenderam que o tema dos imigrantes é visceral na Europa e que a forma do filme é poderosa. Como membro da família Audiard, vibrei muito.

Você pareceu irritado na coletiva pela insistência em vinculá-lo ao tema do imigrante. Por quê?

Sinto muito se a irritação ficou flagrante, mas sou um ator. Parece que só sei colocar na tela minha experiência pessoal. Mas tenho muito orgulho de minha origem.

E o sucesso com as mulheres?

É mesmo? Nem percebo. Sou um cara muito fiel. Amo minha mulher e a respeito muito para ficar pensando em zoar.

Conheço sua mulher?

Ela é atriz, Leila Bekhti.

Pelamor de Deus, ela é linda demais e talentosa. Com ela até eu seria...

100% fiel? Você entende. Mas vou fingir que não ouvi sua provocação sobre a beleza de Leila. (E Tahar Rahim beija na face o repórter).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.