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Em 'Salvo', a reinvenção das narrativas sobre a Máfia

Longa italiano é a história de um killer perseguido pela Máfia e que se envolve com a irmã cega de uma de suas vítimas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 20h08

Eles cultivam o que definem como ‘conflito criativo’. Sicilianos – ambos nasceram em Palermo –, Fabio Grassadonia e Antonio Piazza venceram a mostra Semana da Crítica, no Festival de Cannes deste ano, com seu longa de estreia, Salvo. É a história de um killer perseguido pela Máfia e que se envolve com a irmã – cega – de uma de suas vítimas. O filme é excepcional, e destaque absoluto nesta sexta-feira em que também estreia outro grande filme italiano – Terra Firme, de Emmanuele Crialese. No Rio, onde vieram para o festival, Grassadonia e Piazza conversaram com o repórter.

Os diretores não moram mais na Sicília, mas retornam com frequência. “Nosso filme começou a nascer em 2008, depois de longa vivência como roteiristas. Queríamos contar uma história de nossas origens, e, lá, a Máfia faz parte da vida de todo mundo. Mas não queríamos olhar o tema de uma forma tradicional, à O Poderoso Chefão”, explica Grassadonia. Piazza acrescenta – “Queríamos contar nossa história de fora, com um olhar de estrangeiros, como se não fosse o nosso mundo.”

Ambos admitem que sua origem é literária, e que sempre escreveram para cinema sem se preocupar com o olhar do diretor. “Ele é o cara que vive pensando – isso é possível, isso é impossível. Nunca nos preocupamos com isso. Quer dizer, nos preocupamos agora, pela primeira vez”, diz Piazza. “O killer surgiu imediatamente, e, logo, como num contraponto, a cega. São dois universos distantes, mas queríamos que se tocassem”, conta Grassadonia. E ele arremata – “Seria fácil, talvez, contar essa história de uma forma tradicional, mas não era o que queríamos. Nosso desafio foi alternar os pontos de vista. Como contar a história do ângulo dele, do dela? Como adotar o ponto der vista da cega sem simplesmente escurecer a tela?”

“Filmamos em 35mm, abusando da possibilidade de fazer um jogo de luzes e sombras com oposição bem contrastada. Tivemos um grande fotógrafo, Daniele Cipri, o mesmo de A Bela Que Dorme, de (Marco) Bellocchio.” O som foi outra preocupação da dupla – “Já começamos a nos preocupar com ele desde o roteiro. Se Rita, nossa protagonista, não vê, então é preciso que o espectador perceba o som como ela.” Salvo, o killer, é Saleh Bakri. “Havíamos gostado dele nos filmes de Elia Suleiman. É um ator palestino que vive em Haifa. Enviamos o roteiro e ele topou mais cedo do que esperávamos.”

E Rita? “Ela foi a parte mais difícil de nossa história. Queríamos uma atriz desconhecida e inexperiente, com quem o público pudesse se identificar e que fosse convincente como cega. Sara (Serraiocco) foi uma descoberta. Ela conviveu com pessoas cegas e, depois, passou um tempo com os olhos vendados, para se acostumar. Usa lentes especiais, tudo isso foi muito difícil para ela, mas Sara foi brava. Não só ela teve de aprender, mas nós também. Fizemos um curta, Rita. Não é sobre nossa personagem, mas sobre uma menina cega”, diz Piazza.

O repórter observa que são dois cegos – a cegueira de Salvo é moral. “Para nós, essa era uma história dilacerante de amor. Salvo e Rita descobrem-se, mas o que podem fazer desse amor? Começamos com uma câmera mais fechada, que é o ponto de vista de Rita, e a ampliamos para enquadrar o mundo pelo olhar de Salvo.” O final é deslumbrante. “Que bom que você gostou. Queríamos passar nossa crença de que a esperança existe e que a mudança é possível. É uma mudança pessoal, não social.” E agora? “Estamos viajando muito com o filme. Vamos à França, onde ele deve estrear. Sara irá ao nosso encontro. Temos algumas ideias, mas só depois de tudo isso vamos encarar o desafio do próximo filme”, diz Grassadonia.

SALVO

Direção: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza. Gênero: Drama (Itália/2013, 105 min.). Classificação: 12 anos.

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