Beto Figueiroa/Divulgação
Beto Figueiroa/Divulgação

Em Recife, Costa-Gavras revela inspiração para 'Estado de Sítio'

Diretor diz que chegou ao tema pesquisando embaixador dos EUA; 'América Latina funcionava como laboratório'

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

28 de abril de 2009 | 18h56

Em entrevista coletiva no Cine PE - Festival do Audiovisual do Recife, o diretor Costantin Costa-Gavras explicou como chegou ao tema do seu grande sucesso, Estado de Sítio (1972). "Estava pesquisando a vida do embaixador americano John Peurifoy, que havia participado do golpe militar do meu país, a Grécia, e depois fora para a Guatemala, onde ajudou a derrubar o presidente Jacobo Arbenz", contou. Na pesquisa, topou com a história de Dan Mitrione, o agente norte-americano que dava assessoria às polícias políticas do continente, sobre formas de conduzir um interrogatório.

 

A história lhe pareceu melhor do que a de Peurifoy e assim nasceu Estado de Sítio, ambientado no Uruguai, onde Mitrione foi sequestrado e executado pelo grupo guerrilheiro Tupamaros. Quando lhe perguntaram se sabia que em Belo Horizonte Mitrione se tornara nome de rua no Brasil da ditadura militar, ele se espantou. Mas ficou aliviado quando lhe informaram que, com a redemocratização, a homenagem a agente americano fora retirada.

 

Costa-Gavras evocou o início de sua carreira e formação. Disse que nasceu em 1933 num país, a Grécia, ocupado pelos nazistas e depois sujeitado a uma ditadura militar. Foi estudar cinema na França e isso mudou sua vida. "Aproximei-me de pessoas como Yves Montand e Simone Signoret, militantes de esquerda, porém nada dogmáticos e ciosos das liberdades individuais e de expressão. Isso me influenciou muito", disse.

 

Sentiu que deveria filmes que falassem do seu tempo e suas questões. E, assim fazendo, conquistou vários dos principais prêmios do cinema. Com Z (1969) ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Com Missing (1982) levou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor roteiro. Já Muito mais que um Crime (1989) lhe valeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Ou seja, dos quatro principais troféus do cinema mundial (o da Academia e dos três maiores festivais europeus) só lhe falta o Leão de Ouro de Veneza.

 

Mas, se depender de sua mulher, Michelle, a estatueta veneziana vai ficar faltando na estante do diretor: "Estivemos no Lido com Anna K. e fomos muito mal recebidos; não pretendemos voltar lá", disse ela. E Costa-Gavras, que não é bobo nem nada, concordou com a esposa. Essa boa receptividade de filmes considerados de temática difícil explica-se por sua fusão de cinema de ideias com a preocupação com o espetáculo. Não faz cinema hermético. Busca o público. "Desde cedo eu soube que as pessoas não vão a uma sala de cinema em busca de uma conferência sobre política. Elas querem se identificar com o personagem, emocionar-se, rir, chorar. Se o conteúdo social e político pode ser passado pelas emoções, por que não podemos fazer isso."

 

Mas rebate a acusação de quem diz que faz apenas thrillers políticos. "Em Estado de Sítio o personagem é mostrado morto logo no início. Onde está o suspense? Eu fiz de propósito, pois queria que o filme funcionasse como estímulo para reflexão sobre os fatos que ocorriam naquela época na América do Sul", diz.

 

Aliás, as relações de Costa-Gavras com os latino-americanos são grandes. Dois filmes seus se passam em países da América do Sul - Z no Uruguai e Missing no Chile. Duas ditaduras. "Para mim, a América Latina funcionava como laboratório político, pois tinha condições mais ou menos semelhantes às da Grécia na época do governo militar", conta.

 

Sobre seu filme mais recente, Éden à l’Ouest, exibido ontem em Recife, disse que pretendeu tratar o drama da imigração na Europa com uma tinta de humor. "É uma questão grave, talvez a mais premente da Europa atual, e tem motivado muitos filmes, todos eles destacando o lado dramático da questão. Procurei abordar o tema, mas por um ângulo mais leve, levando em conta a criatividade e a vontade de viver dessas pessoas".

 

Costa-Gavras, que é naturalizado francês e dirige a Cinemateca em Paris, disse que a França, como o Brasil, é um país construído por imigrantes, mas nem sempre as elites dominantes se dão conta disso. Daí a vontade de enaltecer essas pessoas, "pois são elas que fazem o progresso desses países; não são o problema, mas a solução". Ele permanece em Recife até o dia 1º. Acompanha uma retrospectiva dos seus filmes formada por, além de Éden à l’Ouest, Amen (2002), O Corte (2005) e Z (1972).

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