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Em 'que Horas Ela Volta', Anna Muylaert posiciona-se ao focar patrões e empregados

A diretora do filme que tem Regina Casé no papel de uma babá conta que por 20 anos essa história a perseguiu

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2015 | 03h00

Na apresentação e nos debates sobre Que Horas Ela Volta?, em foros como os festivais de Berlim e Gramado, a diretora e roteirista Anna Muylaert contou que, há 20 anos, esse filme a perseguia. Mais recentemente, surgiram obras que dialogam com Que Horas Ela Volta? - O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, e Casa Grande, de Fellipe Barbosa. “O filme já existia na minha cabeça, mas o do Kleber foi muito importante. Me liberou para fazer coisas que eu não tinha tanta certeza de que dariam certo.” Quando viu o de Barbosa, ela já havia concluído o Que Horas...?. “Entendo as relações que as pessoas fazem, mas não concordo muito. Ambos são filmes que falam da ligação entre patrões e empregados, mas o meu fica na cozinha e o dele adota o ponto de vista da sala”, reflete.

Em Gramado, Anna fez outra observação para o repórter, que comentava com ela uma das características do festival. Tanto na mostra brasileira como na latina, Gramado exibiu filmes dos quais se podia dizer que os atores eram coautores. “Falo por mim, claro, mas cada vez mais quero trabalhar com atores que tenham texto próprio. Não gosto de atores marionetes, que a gente dirige e eles repetem. Meus filmes têm uma estrutura. Escrevo as cenas pensando numa evolução dramática, crio diálogos, mas, no set, estimulo os atores para que criem o seu texto. Meu ideal é que o ator reinvente o meu diálogo, se aproprie dele. Todo o elenco do Que Horas Ela Volta? fez isso lindamente. Ouvi que o filme era da Regina (Casé), mas não é verdade. É um filme coral. Todos os atores deram sua contribuição e marcam presença - Camila Márdila, Karina Telles, Michel Joelsas, Lourenço Mutarelli. O Lourenço é maravilhoso. Escrevi o papel para ele, e ele conseguiu me surpreender. Fez muito melhor do que eu esperava.”

A diretora acrescenta: “Esse filme esteve comigo tanto tempo que foi crescendo. Leva a várias discussões. Políticas, sociais, de História do Brasil, de arquitetura, de afeto, de educação”. Anna não quer exagerar na expectativa, mas põe fé de que o filme encontre seu público, e que ele seja bom. “Já lançamos o Que Horas...? em países da Europa e foi um sucesso. Na França, dobramos o número de cópias em todo o país. Aqui, a Gullane (empresa produtora dos irmãos Caio e Fabiano) trabalha com dados realistas. O filme não é uma comédia blockbuster, não vai sair com centenas de cópias. Eles trabalham com cerca de 80 a 100 salas em todo o Brasil. E é claro que a gente sonha em ter de aumentar o circuito na segunda ou terceira semana, por demanda do próprio público. Vai ser muito legal se isso ocorrer. Todo mundo se empenhou. É um filme sobre gente, um filme que tem a cara do País e seria gratificante se o Brasil se reconhecesse nele.”

Na ficção de Que Horas Ela Volta?, Regina Casé faz a babá que permanece na casa mesmo depois que o garoto que ela criou já cresceu. Todo mundo diz que ele é da família, mas, quando a filha de Val vem morar com a mãe - ela se chama Jessica -, algo ocorre. Porque Jessica representa um outro Brasil, uma outra geração que não é a da mãe. Do ponto de vista da patroa, e da própria mãe, Jessica não sabe seu lugar. “Sempre me incomodou muito, desde criança, que a doméstica fosse apresentada como sendo da família, mas não pudesse se sentar à mesa com a gente. Foi uma coisa que sempre me doeu”, confessa a diretora. Não é só a imprensa brasileira que começa a ver Que Horas...? como potencial candidato para o Oscar, inclusive o de melhor atriz. A revista inglesa Screen fez uma crítica muito favorável, ressaltando justamente isso.

Uma última palavrinha de Regina, que não coube na entrevista da capa. Que filme ela andou vendo ultimamente? “Vi o Samba (da dupla Eric Toledano e Olivier Nakache). Como é mesmo o nome do cara, que também está em Intocáveis? Omar Sy? Já pedi aos Gullane que contratem o Sy para contracenar comigo. Acho que dá samba entre a gente.” E ela ri.

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