Em português, o cinema faz a festa

Apesar do idioma comum, a cinematografia dos países de língua portuguesa poucas vezes atravessa o oceano. Uma boa oportunidade de minorar essa falha é o festival de filmes e vídeos O Olhar das Estrelas, que exibirá 52 títulos produzidos em seis países: Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e Portugal. São obras pouco vistas fora de seus países, reflexo de um afastamento já superado na área econômica. "Hoje, Portugal e Espanha são grandes investidores no Brasil, só superados pelos Estados Unidos", lembra o curador brasileiro do festival, Jom Tob Azulay. "Mas o produto cultural deles não chega aqui nem o nosso vai até lá."A seleção dos filmes portugueses e brasileiros privilegiou produções que abordam a língua como fator cultural ou o entrosamento (ou não) dos povos que falam o mesmo idioma. Do Brasil, foram escolhidos O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, Terra Estrangeira, Hans Staden e Anay de las Missiones. Os filmes portugueses são No Quarto de Vanda, de Pedro Costa; Peixe Lua, de José Álvares Morais; Tarde Demais, de José Nascimento; além dos curtas A Noite, O Inventário de Natal e o média-metragem Respirar Debaixo d´Água.Escolher os filmes africanos foi mais complicado, por causa da pequena produção, geralmente associada a países europeus. Mesmo assim, foi possível juntar dez longas, quatro curtas e dois médias-metragens, com destaque para Os Olhos Azuis de Yonta e Pó di Sangui, ambos da Guiné-Bissau, dirigidos por Flora Gomes; os moçambicanos A Guerra da Água, de Licínio Azevedo, e O Olhar das Estrelas, de João Ribeiro. Com exceção dos filmes brasileiros, todos terão legendas porque nem sempre o português ou dialeto falado é compreendido pelos brasileiros.Não por acaso, todos os filmes africanos e portugueses são inéditos no Brasil e a recíproca é verdadeira. "Terra Estrangeira, por exemplo, apesar de tratar da situação dos imigrantes das ex-colônias, inclusive do Brasil, ainda não estreou nos cinemas de lá", cita Azulay. "E mesmo meu filme O Judeu, que trata de uma família brasileira que vai para Portugal durante o período da inquisição, esperou cinco anos para ser lançado, timidamente. Este festival é uma tentativa de abrir esses mercados e já tem data agendada em Portugal, além de propostas para os outros países."Vídeos - A música é o tema dos 31 vídeos a serem exibidos durante o festival. Será oportunidade para rever produções brasileiras recentes que estiveram na telinha uma ou duas vezes (como Tempo Rei - Gilberto Gil; Chico e as Cidades, Milton Nascimento, A Sede do Peixe) ou outras que já estavam quase esquecidas como Heitor dos Prazeres e Chorinhos e Chorões, de Antônio Carlos Fontoura, e Nosso Amigo Radamés Gnatalli. Dos brasileiros, apenas Um Certo Dorival Caymmi, de Aluísio Didier, chegou às salas de cinema.Entre estrangeiros, haverá oportunidade de conhecer, em estado natural, o que os americanos apelidaram de world music. Há o mapeamento musical de Cabo Verde em Dez Grãozinhos de Terra, série de quatro vídeos enfocando as dez ilhas que formam o arquipélago; a curiosa música moçambicana em Moçambique, na Terra das Timbilas; os agora badalados Madredeus (graças à minissérie Os Maias, da Rede Globo) num vídeo sobre o arquipélago de Açores; e a visão européia dessa música em Une Infinie Musique, da francesa Ariel de Bigault, sobre o nosso Paulo Moura, e Cesária Évora - Morna Blues, dos também franceses Anaïs Prosaic e Eric Mulet. Há ainda um raro vídeo sobre a ilha de São Tomé, habitada, segundo a lenda, por náufragos angolanos que sobreviveram também à escravidão."Alguns desses diretores vão estar aqui durante o festival para discutir esse relacionamento entre os países de língua portuguesa, as formas de fazer essa troca acontecer", adianta Azulay. "Mesmo para a televisão brasileira, estes países são um mercado secundário, a ser explorado depois que as novelas se pagam aqui. A minissérie Os Maias, produzida em sociedade com uma emissora portuguesa e exibida quase simultaneamente nos dois países, é um passo adiante nessa direção."

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