Em Pinheiros até parede de cemitério vira cinema

"Sabe, esse cinema, essa lua, tudo isso me deixa comovida pra cachorro", disse a artista plástica Rossiley Ponzilactua, reinventando o poeta Carlos Drummond de Andrade. Ela assistia à sessão do novíssimo Cine Ó do Borogodó, que começa pontualmente à meia-noite das quartas-feiras. O filme é projetado na parte mais lisinha do muro descascado do Cemitério São Paulo. A platéia, atenta, ocupa a calçada, o meio-fio e o asfalto ao longo da Rua Horácio Lane, em Pinheiros. Em vez de comer pipoca, bebe-se cerveja pura ou com energético. Nos intervalos, muito papo-cabeça.Na madrugada de hoje, sob uma lua três quartos iluminada sentados nas poucas cadeiras e no chão, encostados uns nos outros e deitados em mochilas, cerca de 150 jovens assistiram a três filmes curta-metragem. Os carros passavam rente. Alguns motoristas, sem saber se deviam passar ou não, acabavam parando na frente, bem na hora de uma cena "imperdível". Tudo encarado numa boa. "Como é bom ver filme sem legenda", comentou o cineasta goiano Eládio Garcia Sá Teles.Rossiley ouviu falar do "cine cemitério" e foi meio cabreira. "Achei que à meia-noite, num lugar desses, iam exibir só lixo, filmes B. Que boa surpresa descobrir que não era nada disso." Paranaense de Nova Esperança, há 20 anos em São Paulo, ela viu os filmes de pé, ao lado da caixa de som que servia de apoio para copos e maços de cigarro. "Estou pensando na minha cidade", contou. Segundo ela, o único cinema de Nova Esperança há tempos virou loja de departamento. "Essa idéia poderia ser levada às cidades do interior que não têm sala de projeção."Intervenções urbanas - Cinéfilo de carteirinha, o estudante de ciências sociais Marco Meirelles, de 22 anos, ficou alucinado ao saber do projeto Intervenções Urbanas, de exibir filmes na rua, usando como tela paredes de estacionamentos de supermercados, de prédios ou diante de botecos como o Ó do Borogodó. "Nunca tinha visto isso em São Paulo, fiquei superinteressado em ver curtas, um formato de que eu gosto muito e é pouco exibido."Para ele, "a grande beleza" do evento é o projetor móvel. "Olha que barato a qualidade da exibição, o som", elogiou. "E estar num bar, bebendo, com os amigos, numa situação que não é o escurinho do cinema, traz um outro encanto." Concentradíssimo, ele não se incomodava com outros ruídos que não os do filme. "A gente está conversando, de repente rola uma história que toma a atenção por algum tempo. Isso é o curta: um pensamento breve. A gente toma contato com ele de maneira rápida. Como mais uma conversa de bar."Velharias - O Ó do Borogodó ocupava um grande imóvel na Rua Horácio Lane. Fechou. Há um ano, o ex-estudante de economia e ciências sociais Luiz Yanez Rochel, de 24 anos, comprou por um valor irrisório - que não revela - uma pequena parte. Ele fica atrás do balcão onde mal cabem dois freezers e alguns engradados de cerveja. Na frente, quatro banquinhos e um corredor por onde as pessoas passam espremidas para ir ao banheiro. Nas prateleiras, coisas velhas, inutilidades. "Este lugar é um muquifo", comentou a advogada Ana Lúcia Miranda.Ontem ela encontrou a amiga Camila Souza Queiróz, que não cruzava havia um mês. "Vamos lá no Ó", decidiram. Ao chegar, restava só o boteco apertado. Após uma hora de espera conseguiram dois banquinhos e lá ficaram. "Então, disseram que ia rolar um filme. Mas onde?"Bem, os filmes acabaram passando enquanto as duas bebiam cerveja e falavam sem parar. "Imagine ver cinema desse jeito, é muito desconfortável", comentou Camila. "Isto é um cubículo surrealista com um nome que o retrata fielmente."Entendeu? - Numa roda, de costas para a "tela", um grupo de alunos da PUC, colegas "desde a pré-escola" também conversava e bebia. "É para isso que se vai a um bar", disse Pedro Hennel, aluno de economia. "Seria mais viável se fosse cinema mudo porque aí rolava um som interno da balada. Quem quisesse ficar pirando no filme pirava, tipo agora. Quem preferisse, pirava no som, desvinculado do filme. Entendeu?"Perfeitamente. Carolina Musa, que estava no grupo, mas sem beber, também prefere ver filmes no cinema. "Cinema me interessa muito, mas acho este lugar inadequado. E, por favor, não me ponha na turma da bebedeira. Vim só encontrar amigos." Em sua estréia no Cine Ó, o estudante de ciências sociais Frederic Poget, de 20 anos, achou ótimo ver o curta Roberto, sobre o cineasta Roberto Santos, um dos que admira, mesmo sentado no chão. "Já passei por condições mais desconfortáveis."Feliz da vida, Rochel que há dois anos abandonou as duas faculdades para viajar pelo mundo, vai vendendo cervejas, mais de dez caixas na noite de sessão de cinema. "Às terças-feiras rola um sambinha tradicional, Noel, Cartola", conta. Às quartas o cardápio prevê a projeção de curtas-metragens nacionais e, às quintas, de slides. De sexta a domingo o boteco enche sem precisar de atrativos extras. A propaganda corre boca a boca, entre antigos colegas dele. "Podem trazer teatro, poesia. O espaço está aberto a qualquer manifestação artística", avisa.Idealizador - O cineasta paulistano Christian Saghaard, idealizador do projeto Intervenções Urbanas, diz que já exibiu 170 filmes em cerca de 40 cidades do Estado, para projetos do Sesc e em sessões especiais no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo. "Faço filmes experimentais de impacto."A primeira projeção, do filme Sinhá Demência e Outras Histórias, com direção de Carlos Botosso e trilha sonora original de Arnaldo Baptista, foi no Blen Blen, antiga casa noturna de Pinheiros, em 1996. "Havia a necessidade de exibir filmes para outro público que não aquele acostumado aos festivais e mostras de curtas", lembra. O sucesso da exibição levou a um projeto mais amplo de mostras de filmes "radicais" em vários pontos da cidade.

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