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Em 'Phoenix', Christian Petzold e Nina Hoss refazem drama sombrio de 1965

Dupla de 'Barbara' volta com noir político; assista ao trailer do longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2015 | 01h00

São seis filmes juntos, e antes de Phoenix, que estreou quinta, 9, o diretor Christian Petzold e a atriz Nina Hoss fizeram Something to Remind Me, Wolfsburg, Yella, Jerichow e Barbara. “Ela é muito inteligente e uma máquina de ideias”, define o diretor, numa entrevista por telefone, de Berlim. “Às vezes, a conversa sobre um filme, uma personagem, desencadeia o processo que vai levar a outro filme, a outra personagem.” O caso de Phoenix é particular. “O filme tem uma pegada hitchcockiana. Todo o mundo o compara a Vertigo/Um Corpo Que Cai. Por ser um filme muito forte no imaginário de todo o mundo, Nina e eu decidimos não revê-lo. Chega o que já era indelével no nosso inconsciente”, Petzold conta.

O repórter faz uma observação - Vertigo é sobre o desejo masculino, sobre um homem, James Stewart, que tenta recriar, no corpo de uma mulher, Kim Novak, a outra que ele perdeu. Phoenix é sobre uma mulher que, no fim da guerra, é resgatada do campo de concentração. Está desfigurada, faz uma plástica e procura o marido que acha que a entregou aos nazistas. Ele não a reconhece, mas vê alguma semelhança, da qual tenta tirar vantagem. A observação do repórter - Hitchcock filma o desejo masculino. Petzold, de alguma forma, inverte a equação e refaz Vertigo do ângulo da mulher.

“Isso foi coisa de Nina”, conta o diretor. “Já havíamos filmado mais de um terço, quando ela, sutilmente, começou a atuar de forma diferenciada diante da câmera. Perguntei-lhe o que estava havendo, e ela garantiu que desse jeito ia ficar melhor. Brinco que ela me aplicou um golpe. Mas houve o que você percebeu - um deslocamento de eixo. Isso ocorre quando você trabalha com uma mulher tão diabolicamente inteligente e sedutora como Nina.” Phoenix baseia-se num romance do francês Hubert de Monteilhet. “Quando fui comprar os direitos, descobri que estava bem barato porque a história já havia sido filmada nos anos 1960.”

O filme antigo, como o livro, chama-se Retorno das Cinzas. No Brasil, virou De Volta das Cinzas. O diretor é J. Lee Thompson e Samantha Eggar e Maximilian Schell lideram o elenco. Ele ainda estava fresquinho na cabeça do público como o advogado de Julgamento em Nuremberg, de Stanley Kramer - papel que lhe deu o Oscar de melhor ator de 1961. Petzold não viu o filme de Thompson, mas tem certeza de que o seu é diferente. “Pelo que me contaram, ele segue a linha dramática do livro, sobre um enxadrista polonês que também é gigolô e planeja matar a mulher e a filha dela, de quem se tornou amante, para herdar o dinheiro. Eu fiz algumas mudanças e adaptei a trama para o contexto alemão.”

Há um lado ‘filme noir’ muito elaborado em Phoenix. “É meu filme mais estilizado, de gênero”, Petzold avalia. Ao mesmo tempo, acrescentando elementos como a herança do nazismo, o diretor aborda a culpa e a responsabilidade do povo alemão. “Não teria feito o filme só pelo estilo. Esse outro lado político me interessa muito.” Petzold faz uma elucubração interessante. “O filme noir foi uma criação de europeus que emigraram para os EUA fugindo do nazismo e que beberam na fonte do expressionismo alemão. Eu quero falar sobre nazismo e, para isso, reabro a vertente do noir, que me permite chegar, pela contramão, ao nacional socialismo de (Adolf) Hitler. Acho interessante que se fale de nazismo e fascismo, nesse momento em que há uma escalada muito forte de direita na Europa.” É um filme em que a luz é muito importante. Petzold realça o fato. No cabaré, a canção é de Kurt Weill, de 1932. Tem o sugestivo título de Luz de Berlim. “Não creio que muita gente vá perceber isso, mas para mim é importante saber que está lá.”

Premiado com o Urso de Prata de direção por Bárbara, em 2012 - e o prêmio estabeleceu-o, em definitivo, como um dos mais importantes diretores alemães da nova geração (ele vai fazer 45 anos em 14 de setembro) -, Petzold tem alternado a atividade no cinema com incursões pela televisão. Tem feito telefilmes e episódios de séries. Agora mesmo, prepara-se para fazer o próximo filme na França. Com Nina Hoss? “Não, preciso de uma atriz mais jovem, mas não duvido de que, se a contratasse, ela desse um jeito de remoçar.” Com Nina, ele vai fazer o filme seguinte, nos EUA. Faz segredo do que será, mas promete outro drama intenso.

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