Em 'Os Boxtrolls', criaturas vestidas com caixas velhas são perseguidas pela elite

Filme é baseado no livro 'A Gente É Monstro!'

Mariane Morisawa - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

14 de outubro de 2014 | 03h00

VENEZA - Um grupo de monstros que se veste com caixas velhas de produtos de supermercado é perseguido pela elite da cidade em Os Boxtrolls, dirigido por Anthony Stacchi e Graham Annable, e baseado no livro A Gente É Monstro!, de Alan Snow, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Mas, no fundo, os “boxtrolls” são fofos e cuidam do garoto humano Ovo desde que ele era um bebê. “O filme é muito influenciado por Charles Dickens, há um comentário sobre a estratificação socioeconômica e sobre a corrupção na política, mas, claro, não de forma pesada”, disse Travis Knight, animador e dono do estúdio Laika, baseado em Portland, nos Estados Unidos. 

As animações da Laika se diferenciam por serem sempre feitas com a técnica do stop motion. “Sempre fui fã do Ray Harryhausen. Há uma alegria e um maravilhamento infantis nesse tipo de animação”, explicou Knight. Não é uma maneira fácil de fazer cinema, no entanto. Num filme, cada segundo tem 24 quadros. No stop motion, os animadores precisam executar manualmente cada movimento milimétrico de seus bonecos, que são articulados com arames e recebem carinhas diferentes de acordo com suas emoções. Por dia, eles conseguem fazer de 25 a 35 quadros. No fim de uma semana, têm alguns segundos de filme. “A animação stop motion é uma experiência dolorosa. Você torce seu corpo nas posições mais esquisitas”, contou Knight. “Também é mentalmente cansativo, como um problema matemático muito difícil ou um jogo de xadrez. Você precisa saber cada mínimo movimento, onde a câmera vai estar. Mas, quando consegue, parece mágica.”

O estúdio costuma fugir do esquema criaturas adoráveis e coloridas, aventura no estilo montanha-russa e poucos conflitos verdadeiros. A Laika está por trás de Coraline, de Henry Selick, versão cinematográfica do livro de Neil Gaiman sobre uma garota que descobre uma vida paralela dos sonhos, mas que, aos poucos, vai se revelando um tanto sinistra, e ParaNorman, dirigido por Chris Butler e Sam Fell, cheio de fantasmas, zumbis e bruxas, com algumas partes assustadoras. “Aspiramos fazer filmes ousados, diferentes, não estamos interessados em fazer produtos da cultura pop, que você assiste e esquece imediatamente”, disse Knight. “Queremos fazer filmes que despertem o pensamento, que ressoem emocionalmente, que tenham algo significativo para dizer, que sejam progressistas, até meio subversivos. Como somos um pequeno estúdio no noroeste dos EUA, temos uma mentalidade indie.” 

Ele cita como exemplos os desenhos antigos da Disney, como Branca de Neve e os Sete Anões e Pinóquio, que tinham um lado sombrio e outro leve. “Os filmes de animação são mais bem-sucedidos do que jamais foram, hoje em dia, quase todo grande estúdio tem um braço de animação”, disse Knight. “Mas estou desapontado com a mesmice, tanto visual quanto em termos de narrativa.” Por isso, promete que jamais fará continuações. “As sequências tendem a existir só pelo comércio, não pela arte”, afirmou. 

Travis Knight tenta equilibrar os dois lados, empresário e artista, como CEO e principal animador da Laika, fundada em 2005 por ele e seu pai, Phil Knight, criador da Nike, empresa de calçados esportivos. “Quando meu pai era jovem, meu avô era um advogado e dono do segundo maior jornal da época. Então, imagine a reação quando meu pai disse que queria fazer tênis de corrida sofisticados: ‘O que está errado com meu filho?’, pensou meu avô”, contou Travis. “Trinta anos depois, sou eu a dizer para meu pai, agora capitaneando uma indústria gigante, que quero sobreviver brincando com bonecos... Foi ele quem pensou: ‘O que está errado com meu filho?’. Claramente os rapazes da família Knight têm uma longa história de decepcionar de seus pais.” Mas, como se vê pelos filmes da Laika, é uma história com final feliz. 

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