DIVULGAÇÃO
DIVULGAÇÃO

Em 'Orestes', a violência brasileira é discutida dos tempos da ditadura até hoje

Filme de Rodrigo Siqueira mescla o documental e o ficcional para culminar em um julgamento teatral

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2015 | 07h00

No século 5.º antes de Cristo, Eurípedes, na trilogia Oresteia, fala do personagem, Orestes, assassino da própria mãe, Clitemnestra, por sua vez assassina do marido, pai de Orestes, Agamenon. O texto é considerado um marco civilizatório de negação da vingança como forma infinita da reparação do sangue. No filme, a Oresteia conforma a base de reflexão sobre problemas crônicos da violência brasileira, dos tempos da ditadura militar aos dias de hoje.

Em seu filme, Siqueira mescla o documental e o ficcional, verdade e mentira, personagens reais a inventados, crimes reais a delitos imaginários, para culminar num julgamento teatral, em que atuam juristas conhecidos. Essa técnica mista evoca a primeira obra de Siqueira, o premiado Terra Dá, Terra Come, no qual nunca se sabe se determinado ritual é verdadeiro ou encenado. No fundo, pouco importa, contanto que sirva de estímulo a determinadas reflexões e tomadas de partido do espectador.

Logo no começo de Orestes, evoca-se a figura bastante real do Cabo Anselmo, figura carimbada dos que viveram ou estudaram os anos da ditadura. José Anselmo dos Santos (que não era cabo, afinal) era um marinheiro agitador, cabeça da rebelião que forneceu um dos pretextos para eclosão do golpe de 1964. Perseguido pelo regime, refugiou-se em Cuba e era tido como perigoso esquerdista. Isso, até que se descobrisse nele um infiltrado, informante dos órgãos da repressão e responsável pela morte de muitos dos supostos companheiros de luta. Inclusive da própria mulher, Soledad Barrett, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), denunciada por Anselmo e morta sob tortura em 1973. Quando morreu, estava grávida. De Anselmo. Essa história trágica da ditadura é reconstituída a partir do depoimento de uma filha de Soledad, que a recria por meio de fotos e lembranças vagas do padrasto delator.

A esta, se juntam outras histórias da época, como a do ex-militante político José Roberto Michellazzo, convidado a entrar nas dependências do antigo Doi-Codi, onde ficou preso e sofreu o inferno da tortura no tempo do delegado Fleury. 

Orestes não trata apenas de crimes políticos. Essas histórias dos anos de chumbo se entretecem a outras, tristemente familiares nos dias de hoje. Há o caso de uma mãe, que lamenta o filho executado pela polícia e do qual não tem sequer o atestado de óbito. Ou do pai, cujo filho foi abatido em sua moto quando, supostamente, teria resistido a uma batida policial. “O enredo é sempre o mesmo”, diz uma advogada. “Pessoas consideradas culpadas de antemão são executadas e depois se diz que resistiram à prisão.” Fazem parte do cotidiano brasileiro, na periferia de São Paulo ou nos morros cariocas “pacificados”.

Essas pessoas são confrontadas a uma defensora de famílias de vítimas de bandidos, que se diz contra “a turma dos direitos humanos”. Expressa com veemência o discurso violento e vingativo, moeda comum em determinadas camadas da sociedade brasileira. “Olho por olho, dente por dente”, prega. Tudo é discutido entre personagens reais e fictícios, num psicodrama profundamente enraizado na realidade. Assim como o julgamento fictício no qual se enfrentam o promotor Mauricio Antonio Ribeiro Lopes e José Carlos Dias. Nesse embate entre ficção e documentário, a dura realidade da violência brasileira é exposta ao espectador. O que o filme sugere parece bastante claro: todos fazemos parte dela, por ação ou omissão. 

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    CinemaCulturaOrestesRodrigo Siqueira

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.