Em 'O Som do Coração', trilha musical reforça melodrama

Filme de Kirsten Sheridan conta história do garoto criado como órfão que se revela um prodígio musical

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

08 Fevereiro 2014 | 19h19

No original, o filme chama-se secamente August Rush, mas na versão brasileira ganhou o título de O Som do Coração - mais condizente com sua vocação de melodrama. Dirigido pela irlandesa Kirsten Sheridan, a história conta com pegadinhas do tipo filho separado cedo da mãe e criado como órfão, pai perdido pelo mundo e que ignora a existência do filho, etc. Tudo isso pontuado por encontros improváveis e grand finale lacrimogêneo.   Veja também: Trailer de 'O Som do Coração'    A idéia é colocar a música como elemento mágico, que pode ligar as pessoas e chegar aos corações mais embrutecidos. Tudo bem, não há por que não concordar com isso. O chato é ver o modo como é levada essa história de uma violoncelista de talento, Lyla (Keri Russell), que passa uma noite de amor com um roqueiro, Louis (Jonathan Rhys Meyers), e fica grávida. Sofre um acidente e o pai, que não gostara do que havia acontecido, a leva a acreditar que perdeu o bebê. Como conseqüência, o nosso herói é criado em orfanato. Mais tarde terá uma experiência de rua, quando encontra o personagem denominado Mago (Robin Williams), que explora pequenos músicos desamparados e os abriga em um teatro abandonado.   Por inverossímil que seja, no entanto, uma história pode se aproximar do espectador pela criação de uma espécie de verdade interna. Uma química entre elementos que torna o fantástico crível e o mágico, aceitável. Não fosse assim, apenas o realismo teria vez no cinema, e sabemos que não é este o caso. Aliás, dizem que o cinema se divide entre uma vertente realista e outra fabulosa, sendo a primeira filiada aos irmãos Lumière e a segunda a Georges Méliès. Dessa forma, desde o nascimento, as duas facetas foram se entrelaçando, opondo-se e dialogando, e compondo o tecido cinematográfico que temos hoje. Um tecido que comporta de tudo, desde que faça sentido em seu plano interno.   E é exatamente aí que fracassa este O Som do Coração. Há uma clara indecisão sobre o caminho a tomar. Hesita-se entre o registro mais realista, no qual as coisas parecem mais familiares aos espectadores, mas sente-se então que a história desabaria por um tom melodramático, este sim bastante datado. Nesse sentido, pede-se que o público creia num prodígio que aprende as primeiras notas num dia e, no outro, sai escrevendo sinfonias a mando da Julliard School of Music. Ao mesmo tempo, vai-se ao mágico com certo pudor, como se fosse uma quebra de código realista - que na verdade nunca existiu.   As interpretações também não ajudam muito. O garoto Freddie Highmore, no papel do prodígio Evan Taylor, ou August Rush, seu nome de guerra, deveria ser orientado no sentido de evitar o tom beatífico empregado quase todo o tempo. Robin Williams é ele mesmo, e responsável por alguns dos momentos divertidos. Empurra seu explorador de menores para um lado deliberadamente canastrão e assim acha graça onde ela não existe. Keri Russell e Jonathan Rhys Meyers estão burocráticos, expressivos, ambos, como um par de berinjelas.   Mas o ponto alto (ou baixo, dependendo do ponto de vista) é a própria música, que afinal deveria ser a personagem central em um filme nela apoiado. Pois bem, a trilha só reforça o lado melô da história e em nada contribui para temperá-lo com algum senso de proporção. Soa excessiva por toda a extensão do filme e desafina em momentos capitais, quando transforma um pastel do que parece ser Bach na linha de fundo, em gororoba indigerível. E, então, derrapa de vez.

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