Em 'O Protetor', Denzel Washington vive um homem perseguido

Personagem deixa perguntas sem resposta, diz ator

Cindy Pearlman, The New York Times

25 Setembro 2014 | 03h00

"A gente leva tudo o que faz como ator para casa", disse Denzel Washington. “Infelizmente, minha mulher tem de lidar com isso. Ela deve pensar: ‘Quem está voltando hoje? Oh, é o Malcolm X. Oh, é o detetive Harris de Dia de Treinamento (2001)’. Se for o homem de Dia de Treinamento, então é bom todo mundo se abaixar”, afirmou Denzel, dando uma risada gostosa.

De camiseta preta e calça combinando, o ator - que fará 60 anos no dia 28 de dezembro - parecia em boa forma durante uma entrevista no Festival de Cinema de Toronto para falar de seu novo filme, O Protetor, dirigido por Antoine Fuqua, que estreia nesta quinta-feira no Brasil.

Baseado na popular série de TV dos anos 80 estrelada por Edward Woodward, O Protetor traz Denzel como Robert McCall, um homem que deixa um passado misterioso e obscuro para trás para viver uma vida calma. Entra em cena uma mulher jovem, Teri (Chloe Grace Moretz), que tenta fugir do controle de gângsteres russos. De repente, McCall se vê arrastado para seu antigo papel como solucionador de problemas que acredita na própria forma de justiça de rua.

Parece um thriller, mas o ator insiste que há mais do que isso. “Acho que as pessoas são preguiçosas. Elas dirão: ‘Oh, é um filme de ação. Oh, é um thriller’. Não sei o que isso significa. Você pode filmar cenas de ação como um drama, que é o que Antoine Fuqua fez neste filme. De modo que não sei o que é um filme de ação. Nem sei se já fiz um.”

Numa era de filmes reciclados, Denzel atuou em um punhado de remakes e nunca havia feito um trabalho baseado numa série de TV. Mas ele não pôde resistir a O Protetor. “Era um excelente roteiro. Eu o li correndo num fim de semana prolongado de 4 de julho. Liguei em seguida e disse: ‘Aqui é o Robert McCall falando’. Foi uma decisão bem rápida.”

Na sequência, Denzel Washington contatou Fuqua que o havia dirigido em Dia de Treinamento, filme que lhe rendeu um Oscar de melhor ator. Os dois não haviam trabalhado juntos desde então, mas o diretor não hesitou em subir a bordo.

“Denzel Washington me ligou e disse: ‘Só leia o roteiro. Achei fantástico. Leia-o, depois me ligue’”, recordou o diretor Antoine Fuqua, de O Protetor, numa entrevista separada. “Algumas horas depois, telefonei para ele e perguntei: ‘Quando quer começar?’” Denzel não teve nenhum problema em voltar a trabalhar com Fuqua.

“Não preciso procurar nada num diretor como ele”, afirmou o ator. “A coisa mais sensata que fiz sobre esse filme foi entrar em contato com Fuqua. Não gosto de entrar num filme preocupado com a capacidade do diretor de fazer o filme. Não precisei nem pensar nisso depois que ele aceitou.” Por sua parte, Fuqua contou que procurava um roteiro para filmar com Denzel nos últimos 12 anos.

“A coisa mais inteligente que posso fazer quando Denzel me liga, é, simplesmente, dizer sim”, recordou também.

Denzel Washington raramente faz personagens como McCall, um perdedor solitário que virou as costas para o mundo que o cerca. Segundo o ator, que geralmente faz personagens afirmativos e homens de família, isso foi parte do apelo para aderir ao projeto.

“Todos nós temos uma persona pública. Quero dizer, todos nós. Neste filme, vemos este sujeito sozinho, e isso não é nada empolgante. Tenho certeza de que se você olhar em volta em qualquer sala, verá algumas pessoas que são bem mais estranhas do que este personagem, quando elas estão em casa sozinhas”, ressaltou. “Eu gosto da maneira como ele dobra seu guardanapo e como precisa que as coisas mantenham uma certa ordem.” Parte do interesse, ele adiantou, decorre de o personagem não ser um livro aberto e do fato de o filme terminar sem que todas as perguntas do espectador sejam respondidas.

“Gostei que não fizemos a grande cena de exposição que o explica”, analisou Denzel. “Muita coisa permanece um mistério.” O Protetor foi filmado nas ruas de Boston, uma cidade com a qual o ator tem antigas associações. “A última briga de verdade que tive na vida foi em Boston”, lembrou. “Há cerca de 30 anos, minha mulher estava fazendo um programa por lá chamado The All-Night Strut. Eu fui visitá-la. O segurança tentou sugerir que eu era um cafetão e ela uma prostituta. Eu não sabia brigar, mas sabia vencer. Há uma grande diferença.”

Denzel Washington cresceu em Mont Vernon, Estado de Nova York, onde sua mãe era esteticista e seu pai pastor pentecostal. Após uma passagem pela Universidade Fordham em Nova York, quando ainda pretendia se formar jornalista, ele reavaliou as suas perspectivas e decidiu ser ator.

O resto, é claro, é história de Hollywood. Denzel fez sua estreia na tela numa participação sem crédito como um assaltante no sucesso surpreendente Desejo de Matar (1974), quando ainda era estudante e depois de se formar perambulou por teatro, televisão e cinema por alguns anos até ser escalado como ator coadjuvante na comédia cinematográfica A Cara do Pai (1981). No ano seguinte, foi escalado como o Dr. Philip Chandler na série de TV St. Elsewhere (1982-1988) e estava a caminho da lista de ponta de Hollywood na qual permaneceu confortavelmente nos últimos 25 anos.

Durante esse tempo, ele estrelou mais alguns clássicos, entre os quais Mais e Melhores Blues (1990), Mississipi Masala (1991), Malcolm X (1992), O Dossiê Pelicano (1993), Filadélfia (1993), Maré Vermelha (1995), Hurricane - O Furacão (1999), O Plano Perfeito (2006) e O Voo (2012). Ele ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por Tempo de Glória (1990) e outro como melhor ator em Dia de Treinamento, de 2001. Nos últimos anos, Denzel se especializou em papéis dramáticos. Ele não faz uma comédia ou filme romântico desde Um Anjo em Minha Vida (1996), mas insistiu que não foi por culpa sua. “Ninguém está me chamando para esses filmes”, garantiu ele com uma risada.

Enquanto construía a reputação como um dos maiores atores de sua geração, Denzel Washington lançou uma segunda carreira como diretor. Ele assumiu o comando em Voltando a Viver (2002) e O Grande Desafio (2007), nos quais também trabalhou como ator e, definitivamente, tem planos para muito mais.

“Dirigi dois filmes”, ele contou. “Não entendo nada de direção, mas conheço um pouco sobre atuação. Ele recordou uma cena em Voltando a Viver, de 2002, em que Fisher (Derek Luke) reencontra sua mãe havia muito perdida (vivida pela atriz Viola Davis).

“Derek já havia imaginado que queria realmente se emocional e chorar”, ressaltou Denzel. “Eu podia dizer que ele o havia imaginado. De modo que ele foi com tudo. Eu pensei: ‘Vamos deixar ele sofrer um pouco’. Aí eu disse: ‘Oh, está ótimo. Vamos fazer outra. Está ainda melhor, vamos fazer outra’. Aí eu observei: ‘OK, Derek, tudo que você sentiu aqui se justifica, mas você está sentado diante de sua mãe. Não deixe que ela o veja suar. Esta é a sua mãe que não o criou e que desistiu de você. Não deixe que ela vença. Não chore!’. Mais um take. Ele o fez brilhantemente”, falou Denzel, e foi isso. “É essa a alegria de dirigir. Você vai ao lugar certo.”

Numa longa e muito premiada carreira, o ator - que vive em Los Angeles com a mulher, Pauletta, e seus quatro filhos - admite alguns tropeços. “Cometi o erro de recusar Seven - Os Sete Pecados Capitais (1995)”, admitiu Denzel Washington. “O papel de Brad Pitt, eu o li e achei que era demais para mim. Aí eu vi o filme e...” Ele parou no meio da frase e se lamuriou. “Foi grande e eu adorei quando assisti, mas não era para mim. Era para Brad. No fim, tudo acabou bem.”

Mesmo com 40 anos de carreira, o ator relatou que ainda fica nervoso no primeiro dia num set de filmagem. “Nunca fiz um filme sem ficar nervoso nos primeiros takes. Um músico de jazz também não. Ele conhece o seu solo, mas não conhece a música toda. Para um ator, ninguém tocou alguma música no primeiro dia. Eu fico sempre me perguntando, ‘Qual é o ritmo?” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

O PROTETOR

Título original: The Equalizer

Direção: Antoine Fuqua

Gênero: Ação (EUA/2014, 131 minutos) Classificação: 16 anos 

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