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Em 'O Pacto de Adriana', Lissette Orosco abre uma página original sobre a ditadura Pinochet

Diretora descobre que sua tia fora colaboradora do regime opressor

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2018 | 06h02

Quase toda família tem uma personagem como a Tia Chany. Falante, extrovertida, de bem com a vida, bem-sucedida. Titia era a alegria das festas, o orgulho da família, a referência das sobrinhas. Passou a morar no exterior, e quando voltava, vinha carregada de presentes para as meninas. Por outro lado, depois que começamos a conhecê-la melhor, podemos dizer que poucas famílias têm uma personagem como ela.

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Quem se encarrega de afastar os véus que separam a aparência da verdadeira face de Chany, aliás, Adriana Rivas, é sua própria sobrinha, a documentarista Lissete Orosco, de O Pacto de Adriana. Tia Chany foi presa em 2007, acusada de colaboração com a ditadura Pinochet. Solta, em 2011 viajou para a Austrália e não mais voltou ao seu país, a não ser para visitas ocasionais. Quando o filme estava sendo feito, vivia a possibilidade de ser extraditada da Austrália para o Chile para enfrentar novo julgamento.

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Ela nega tudo. Admite sim, claro, que trabalhou para a famigerada DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), a polícia política de Pinochet, responsável por prática de tortura, assassinatos e “desaparecimentos” de opositores do regime. Mas, Adriana reafirma, “não sabia de nada do que se passava”. Isso apesar de ter sido íntima do general Manuel Contreras, o chefão da DINA, considerada a “Gestapo chilena”.

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Em conversas por Skype com a sobrinha, Adriana se espanta de que a associem a crimes tão hediondos. Admira-se mais ainda de que, ao invés de receber apoio da família, tenha de enfrentar perguntas comprometedoras da sobrinha querida. Por que concordara em falar com Lissete sobre seu passado? Provavelmente, porque esperava obter um filme que endossasse a sua versão do caso, a de que nada sabia e que fora uma vítima inocente de tempos ruins. Quando o filme tomou outro caminho, arrependeu-se.

O que é este filme, então? O resultado de um terrível processo de descoberta pessoal e política da diretora Lissete Orozco. O documentário venceu a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo do ano passado, em decisão unânime do júri. Foi uma decisão corajosa para um filme corajoso. 

Há, nele, esse ponto fundamental: o destemor da sua diretora. Podemos esperar um documentário de investigação de crimes políticos por parte de alguém que não tenha nada a ver com a história. Ou que tenha sofrido as suas consequências. Ou de um investigador imparcial, ou mesmo que tenha um ponto de vista prévio sobre o assunto. Mas, de um parente? E, mais ainda, de alguém que, na infância, aprendeu a estimar e admirar essa pessoa agora acusada de crimes tão graves?

Pois Lisette não se intimida. Além de interrogar de maneira insistente a própria personagem, vai atrás de colegas de “trabalho” da tia, ouve pessoas, escuta vítimas sobreviventes daquele período de trevas. Recolhe depoimentos de estarrecer. Mesmo diante de tais evidências, Tia Chany continua a negar tudo. Anos nas dependências da DINA e não sabia de nada, jamais vira um preso político, soubera depois que “coisas horríveis” aconteciam, mas nada tinha a ver com isso. 

Testemunhas negam suas desculpas. Era íntima de Manuel Contreras, chefe da DINA, um dos assassinos mais brutais do período Pinochet. Adriana não omite que frequentou essa gente e usufruiu dos privilégios do poder. Aliás, admite que aqueles foram os melhores anos de sua vida. “Eu era de origem humilde, quem imaginaria que um dia estaria em embaixadas, ao lado de presidentes da república?”, deslumbra-se.

De acordo com ela, era apenas uma secretária, que se tornou útil porque sabia inglês. Depois fez um curso sobre inteligência militar e capacitou-se para servir o governo. Sobreviventes do regime de Pinochet lembram-se dela. Qual seu grau de cumplicidade? O jornalista Javier Rebolledo, autor de um livro sobre a DINA, El Despertar de los Cuervos, afirma que a política desse tipo de organização era “não deixar ninguém de fora”. Todos deveriam ter as mãos sujas de sangue. Desse modo, criava-se uma aliança em que ninguém poderia incriminar ninguém, pois todos estavam envolvidos. Um pacto de assassinos. 

A ditadura chilena (1973-1990) tem sido bastante esmiuçada pelo cinema, muito em razão da obra seminal de Patricio Guzmán, cineasta quase exclusivamente dedicado ao tema. No calor do golpe militar de 1973, Guzmán registrou material que redundaria em sua obra-prima, a trilogia A Batalha do Chile. Depois retornaria ao golpe e suas consequências em obras tão marcantes quanto Chile, Memória Obstinada, O Caso Pinochet, Nostalgia da Luz e O Botão de Pérola. Filmes tão fortes do ponto de vista político, quanto esteticamente notáveis.

Isso para dizer que obras cinematográficas sobre a tragédia chilena não faltam. E, mesmo assim, Lissete Orosco consegue inovar e surpreender ao cavar em sua própria história familiar para trazer novos aspectos do descaminho histórico em que seu país ingressou no dia 11 de setembro de 1973. O Pacto de Adriana revela o destino de uma moça comum que se vê tentada pelas benesses do poder a participar de uma república de assassinos. É radiografia precisa de como ditaduras criam ambiente favorável para expressão dos piores instintos das pessoas.

Unanimidade

O júri internacional da Mostra de Cinema de São Paulo do ano passado elegeu por unanimidade O Pacto de Adriana como melhor filme. Já de volta a seu país, a cineasta chilena Lissette Orozco agradeceu por vídeo.

 

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