Em 'O Menino no Espelho', o sonho do duplo, na imaginação de Fernando Sabino

Adaptação de livro do escritor mineiro traz relato interessante e um achado de ator

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h00

Como qualquer garoto de 10 anos, Fernando enfrenta uma série de tarefas chatas na vida. Seu sonho é ter um clone. Enquanto ele se diverte, o “outro” iria à escola, faria lição de casa, aturaria os adultos, etc. Esse é o mote de O Menino no Espelho, livro de Fernando Sabino (1923-2004), adaptado pelo diretor mineiro Guilherme Fiúza Zenha. 

O tema é universal. Não precisamos ser garotos para desejar que alguém enfrente para nós o lado desagradável da vida. Quando se é criança, pode-se dar asas à imaginação e fazer de conta que o tal clone existe mesmo. Pelo menos essa é a fantasia de Fernando (Lino Facioli), que se materializa num duplo saído do espelho e disposto a assumir os encargos menos prazerosos. 

O relato é interessante, os efeitos especiais não decepcionam (mesmo porque são econômicos) e o menino é um achado. Aliás, antes de O Menino no Espelho já tinha sido revelado no exterior, pois vive o personagem Robin Arryn na série Game of Thrones. Lino mora na Inglaterra. Pai e mãe são interpretados por Mateus Solano (Domingos) e Regiane Alves (Odete). Ricardo Blat faz o Major Pape Faria, um integralista durão e moralista, enfrentado pelo pai do garoto, de linha mais liberal. Um elenco adulto homogêneo, e que forma uma moldura discreta para que os protagonistas infantis possam se destacar. Mateus Solano, em especial, destaca-se ao compor um pai com problemas para disciplinar o filho, mas sem desejar inibi-lo para a vida. Tenta achar a medida necessária entre duas atitudes contrárias e ambas nefastas – a tolerância completa e a rigidez autoritária. Se Domingos e Odete são retratos dos pais de Sabino, o escritor teve ótima infância e muito boa educação. 

Lino Facioli interpreta um perfeito menino mineiro dos anos 1930, época em que a história de Fernando e seu duplo é ambientada. Ora, é a própria infância de Fernando Sabino que vemos aqui reproduzida, comentada e imaginada através da criação literária, e, agora, cinematográfica. Não se trata de registro realista, mas da recordação que, evocada, produz outro tipo de realidade. Daí a boa sacada do clone. O duplo, chamado de Odnanref (Fernando, ao contrário) assume cada vez mais importância na vida do garoto. Vai cada vez mais longe e, talvez, longe demais. O filme traça esse percurso: da insatisfação vai-se à fantasia e, desta, volta-se à realidade, mas de outra forma. É o caminho clássico do amadurecimento. Precisamos lidar com o real, mas podemos fazê-lo ao nosso estilo. Nesse momento, duplos ou clones tornam-se dispensáveis. 

Nessa história, Fiúza retrata um Brasil ainda meio romântico, interiorano, em que as brincadeiras de rua faziam parte da infância de todos os garotos e garotas. A trama se passa na Belo Horizonte dos anos 30, mas o filme foi realizado em Cataguases, terra de Humberto Mauro, um dos pais do cinema brasileiro (na verdade, Mauro nasceu em Volta Grande, mas se mudou em criança para Cataguases). 

Talvez influenciado por Mauro e pelos ares de Cataguases, Fiúza faz uma adaptação cheia de frescor do relato de Fernando Sabino. Não se tem, em momento algum, a impressão de um daqueles “filmes para crianças” artificiais, com estímulos indiretos ao consumo (como se fossem necessários...) ou referências a figuras em moda para se aproximar do seu público-alvo. Nada disso. Temos apenas uma boa história, filmada de maneira honesta e convincente. 

Essa simplicidade talvez seja o melhor trunfo de O Menino no Espelho, uma das poucas produções brasileiras destinadas à infância que não subestimam seu público-alvo. Nem torram a paciência dos pais que levam os meninos ao cinema. 

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