Philip Montgomery/The New York Times
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Em ‘O Irlandês’ e na sala de casa, Martin Scorsese reflete sobre a morte

Depois de mais de meio século, o diretor continua profundamente dedicado à sua carreira e, embora 'O Irlandês' possa muito bem ser um belo encerramento, ele não tem intenção de parar por aqui

Dave Itzkoff, The New York Times

04 de janeiro de 2020 | 07h50

Martin Scorsese está mais vivo que nunca, cheio de uma paixão renovada pelo cinema e revigorado pela recepção de sua mais recente obra-prima do mundo da máfia, O Irlandês. Mas o que ele quer mesmo é falar de morte.

Só para deixar claro: ele não está falando sobre as mortes dos personagens de seus filmes ou de qualquer outra pessoa. “Você só tem que deixar acontecer, especialmente neste ponto privilegiado em termos de idade”, disse ele em uma tarde de sábado no mês passado.

O diretor de 77 anos estava acomodado em uma poltrona confortável na sala de sua casa, em Manhattan, assento de onde ele viria a se levantar várias vezes quando tomado por uma curiosa agitação durante nossa animada conversa sobre a mortalidade e sua inevitabilidade.

Scorsese estava falando em deixar de lado suas expectativas em relação a O Irlandês. Mas também falava sobre renunciar a bens físicos: “O negócio é se livrar de tudo agora”, disse ele, com a fala veloz que é sua marca registrada. “Você tem que decidir quem vai ficar com o quê.” E o último passo desse processo é abrir mão da própria existência.

“Muitas vezes, a morte é repentina”, continuou ele. “Se você tiver a sorte de continuar trabalhando, o melhor é entender qual é a história que você ainda precisa contar.”

Ele encontrou essa inspiração em O Irlandês, sua gigantesca dramatização da vida de Frank Sheeran (Robert De Niro), homem da máfia que alegou ter matado Jimmy Hoffa (Al Pacino).

Não foi um desafio livre de angústias para Scorsese – seus filmes nunca são –, pois ele resistia à ideia de fazer mais um filme sobre o mundo do crime organizado e hesitava em realizar o projeto com a Netflix, e não com um estúdio tradicional.

Mas o que o levou a superar essas incertezas foi uma história que ultrapassava o escopo de Os Bons Companheiros ou Casino e seguia até os dias finais da vida de Sheeran, quando ele é deixado sozinho para contemplar a moralidade de seus atos. Em palavras que Scorsese sabia que não se referiam apenas ao filme, ele disse: “Tudo tem a ver com os últimos dias. É o último ato”.

Às vezes, ele fala como alguém que não tem mais nada a perder, quando está argumentando sobre filmes baseados em quadrinhos, sobre o tratamento das mulheres em suas obras ou sobre o que considera ser sua posição frágil na indústria cinematográfica dos dias de hoje.

Mas, depois de mais de meio século, Scorsese continua profundamente dedicado à sua carreira e, embora O Irlandês possa muito bem ser um belo encerramento, ele não tem intenção de parar por aqui.

O que o motiva agora, disse ele, não é o medo da morte, mas a aceitação de que isso acontece com todo mundo, um entendimento que lhe proporciona uma perspectiva.

“Como dizem no meu filme, ‘é o que é’”, disse ele. “Você precisa abraçar isso.”

Assim como seu dono, a casa de Scorsese é um monumento ao cinema. Além do imponente retrato de Gouverneur Morris, pai fundador dos Estados Unidos e ancestral de Helen, esposa do diretor, as peças de decoração mais proeminentes ao seu redor são imensos pôsteres de filmes amados de Jean Cocteau e Jean Renoir, entre eles três de A Grande Ilusão, só nesta sala. Do outro lado do corredor fica a sala de jantar onde ele editou partes de O Irlandês, Silêncio e O Lobo de Wall Street.

Scorsese está sempre relembrando essa história, contando casos engraçados sobre ter assistido anos atrás a uma versão televisiva toda picotada de Cidadão Kane ou sobre ter se impressionado quando John Cassavetes, um herói e mentor, recebeu da Columbia Pictures aquilo que parecia ser um orçamento principesco – US $ 1 milhão – para fazer Os Maridos, sua comédia dramática dos anos 1970 sobre homens em crise de meia idade.

Sua juventude também foi uma iniciação à cultura da morte, servindo como coroinha para missas de réquiem na antiga Catedral de St. Patrick (“Dies Irae era minha música favorita”, disse ele) ou ajudando um amigo a fazer arranjos florais para os serviços funerários. Quando adolescente, ele perdeu dois amigos em curto intervalo de tempo – um morreu de câncer, outro, em um acidente. Um dos enterros, no cemitério próximo a uma fábrica, deixou uma forte impressão sobre ele.

“Eu falei: ‘então é isso?’”, recordou Scorsese. “Vão nos espremer num pedacinho de terra qualquer do Queens, neste cenário feio e destrutivo? Foi um choque e um despertar – um despertar não sei bem para o quê, para uma mudança.”

O olhar atento para detalhes macabros e a vontade inabalável de descrevê-los fizeram bem a Scorsese, mas, em algum momento da produção de Casino (1995), sua saga da máfia de Las Vegas – particularmente na cena em que o personagem de Joe Pesci é espancado até a morte e enterrado em um milharal –, o diretor começou a se perguntar se havia levado essa habilidade ao limite. “Falei para mim mesmo: não posso ir mais longe que isto”, contou ele.

Nas duas décadas seguintes, ele evitou projetos do gênero drama policial. (Uma exceção foi Os Infiltrados, pelo qual finalmente ganhou um Oscar). Mas, qualquer que fosse o assunto, Scorsese disse que se sentia esgotado, sobretudo nas conclusões das filmagens, quando ele inevitavelmente se deparava com executivos de estúdio que queriam cortar os filmes.

“Nas duas últimas semanas de edição e mixagem de O Aviador”, uma coprodução que envolvia Warner Bros. e Miramax, entre outros, “eu deixei o negócio por causa do estresse”, lembrou ele. “Falei: se é assim que vocês querem fazer filmes, estou fora”.

É claro que ele não desistiu, mas recorreu cada vez mais a financiadores independentes para apoiar seus projetos, acreditando que ele e o sistema de estúdios se tornaram inimigos mortais. “É como estar num bunker, atirando em todas as direções”, disse ele. “Você começa a perceber que não está mais falando o mesmo idioma, então não consegue mais filmar.”

Quando De Niro o procurou com o material-fonte de O Irlandês, no meio dos trabalhos para outro filme da Paramount, o qual eles viriam a abandonar, Scorsese não o viu necessariamente como uma oportunidade de fazer um grande pronunciamento sobre sua obra ou sobre a máfia. “Achei que era um risco”, disse ele, temendo que o filme fosse recebido como mais um drama de máfia em seu currículo.

O único motivo para fazer o O Irlandês, disse Scorsese, era tratar de ideias que ele ainda não havia enfrentado. “Vai ser enriquecedor?”, ele se perguntou. “Vamos aprender sobre o invisível, a vida após a morte? Não, não vamos”.

Mas o filme poderia dizer algo sobre “o processo de viver e da existência, através do trabalho poderíamos descrever esse processo, os atores poderiam vivê-lo”. E ele não conseguiu resistir à história de criminosos cuja prolongada vida útil se torna uma maldição que lhes impregna os crimes nas almas. Ele citou a letra de Jungleland, música de Bruce Springsteen: “They wind up wounded, not even dead” [algo como: eles acabam feridos, mas não mortos], disse Scorsese. “E isto, de certa forma, é ainda pior”.

O Irlandês, disse ele, não foi um repúdio a seus dramas criminais anteriores, nem uma expressão de arrependimento pela maneira como retratara seus personagens empertigados. “Não acho que seja arrependimento”, disse ele. “É diferente. Aqui estamos diante de um beco sem saída, e todos têm que lidar com isso. Mas precisam de tempo. E é para lá que estamos indo.”

O Irlandês levou mais de uma década para ser produzido e, à medida que seu elenco crescia para incluir Harvey Keitel, Pesci e Pacino (que nunca havia trabalhado com Scorsese), o diretor podia sentir que os riscos estavam aumentando.

De maneiras sutis e também substanciais, Scorsese vê o mundo mudando e ficando menos reconhecível. Ele aceitou com gratidão o acordo com a Netflix, que cobria o orçamento de 160 milhões de dólares para O Irlandês. Mas a barganha significava que, depois de uma limitada estreia nos cinemas, o filme seria exibido apenas na plataforma de streaming da empresa.

Isso quer dizer que alguns espectadores estão assistindo ao filme de três horas e meia aos poucos, em vez de vê-lo em uma única sessão, como preferiria o diretor. Mas Scorsese disse que achava melhor que o filme estivesse disponível em algum lugar, de alguma forma, e não em lugar nenhum. “Um dia talvez seja exibido num cinema, como parte de uma retrospectiva, mesmo que seja num cinema de esquina”, disse ele. “Eu realmente pensei nisso.”

A Netflix disse que O Irlandês foi assistido por mais de 26,4 milhões de contas em sua primeira semana no site, mas o mundo de smartphones, tablets e dispositivos de streaming é praticamente invisível para Scorsese.

Descrevendo sarcasticamente sua realidade cotidiana, ele disse: “Saio de casa, eles me enfiam num carro, me levam a algum lugar, me tiram do carro, me botam numa mesa, alguém fala comigo, eu digo ‘sim’. Aí volto pra casa e tento entrar por essa porta sem que os cachorros fiquem malucos”.

Mas ele é capaz de se adaptar e evoluir: em seu quinto casamento (ele e Helen se casaram em 1999), esse lobo solitário se reformulou como homem de casa e família. O casal tem uma filha, Francesca, e ele tem outras duas, Cathy e Domenica, dos dois primeiros casamentos.

Mas você também sabe que Scorsese não é exatamente uma flor, se você acompanhou suas recentes críticas aos filmes da Marvel, que, segundo ele, “não são cinema” e estão mais próximos dos “parques temáticos”, como afirmou em uma entrevista à revista Empire em outubro. (Ele expandiu suas observações em um artigo em novembro no New York Times).

Isso levou Robert A. Iger, executivo-chefe da Walt Disney Co. (dona da Marvel) a dizer à revista Time que os comentários de Scorsese eram “desagradáveis” e “injustos com as pessoas envolvidas nos filmes”, acrescentando que ele queria marcar um encontro com o diretor.

Scorsese me disse que havia contatado Iger muitos meses antes, em nome de sua Film Foundation, organização sem fins lucrativos que está tentando restaurar e preservar filmes da biblioteca da 20th Century Fox que hoje são propriedade da Disney. “Aí tudo isso veio à tona”, disse Scorsese, com uma risada. “Então teremos muito que conversar”. (Uma porta-voz da Disney confirmou que a empresa estava tentando marcar a reunião entre Scorsese e Iger).

Apesar das aversões declaradas, Scorsese está voltando aos estúdios de Hollywood para seu próximo filme, Killers of the Flower Moon, adaptado do livro de não-ficção de David Grann sobre os assassinatos de índios Osage na década de 1920 em Oklahoma. O filme será financiado pela Paramount.

Scorsese tem outras aspirações, mas elas não têm nada a ver com cinema. “Adoraria tirar um ano para ler”, disse ele. “Ouvir música quando necessário. Estar com alguns amigos. Porque todos nós estamos indo. Os amigos estão morrendo. A família está indo embora.”

O empecilho, admitiu Scorsese, é ele próprio e a disposição que o obriga a contar histórias no meio que conhece melhor.

“Vou ler um livro ou encontrar uma pessoa, aí vou acabar dizendo: ‘Ah! Vou fazer um filme sobre isso”, explicou. “Ao longo dos anos, consegui fazer isso. Agora as coisas estão se estreitando”.

Depois, há um outro limite – você sabe, a morte. Mas o fato de ela ser incognoscível e inegociável não significa que não valha a pena lutar todos os dias.

“O problema é que o tempo fica limitado e a energia, muito limitada. A cabeça também, é claro”, disse ele. “Felizmente, a curiosidade não acaba.” / Tradução de Renato Prelorentzou

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