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Em 'O Filho de Saul', a dignidade conta mais do que a própria sobrevivência

Longa é favorito para a estatueta de melhor filme estrangeiro no Oscar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2016 | 03h00

O grande desafio de O Filho de Saul é tomar um dos temas mais filmados de todos os tempos - os horrores do Holocausto - e dar-lhe ar de novidade. Não no sentido vulgar ou frívolo da palavra; novidade aqui deve ser entendida como um olhar fresco e original. Diferente. Pode-se dizer que o húngaro László Nemes consegue levar a cabo a proeza. Não apenas porque mostra os horrores de um campo de concentração nazista sob uma ótica particular, como porque provoca uma incômoda imersão do espectador no universo dos campos. Ou seja, não se trata apenas de arrumar uma roupagem invulgar para um tema antigo, mas consegue transfigurá-lo partindo de um ponto de vista renovado. São essas qualidades que, segundo os especialistas em Oscar, tornam O Filho de Saul favorito disparado para a estatueta de melhor filme estrangeiro. Ele se vale de uma vantagem já clássica, que é a simpatia dos membros da Academia pela temática. Mas isso veremos dia 28, quando forem entregues os troféus. Por enquanto, vamos nos restringir ao filme em si e de que maneira Nemes consegue colocá-lo em patamar cinematográfico diferente dos congêneres. 

Para tanto, Nemes cerca-se de alguns procedimentos radicais. Dois deles, em particular. Primeiro, usa uma câmera leve, “na mão”, acompanhando o deslocamento frenético do personagem principal, como se ela estivesse grudada às suas costas e acompanhasse todos os seus movimentos. Às vezes, o que a câmera vê é o que o personagem estaria vendo naquele momento. Uma câmera subjetiva radical, equivalente cinematográfico ao que seria uma narração em primeira pessoa de um romance ou de um relato autobiográfico. A segunda opção radicaliza a primeira. Nemes usa um formato de tela reduzida, 1:37. Pouco usual no cinema, a janela estreita provoca uma sensação maior de claustrofobia, como se não houvesse chance de se evadir daquele inferno que se expõe diante do espectador. Diante de e interno ao espectador, que não raro se sente participando dele. 

Depois dessas considerações técnicas, chega o momento de apresentar o nosso personagem. Saul (Géza Röhrig, em interpretação aeróbica) é um prisioneiro judeu, trabalhando no Sonderkomanndo de um campo de concentração. Ou seja, ele e companheiros são obrigados pelos nazistas a conduzir outros judeus às câmaras de gás onde serão executados e depois recolher os cadáveres. É um trabalho hediondo, a que eles são forçados e obedecem caso pretendam sobreviver. Apenas os mais fortes e jovens podem praticá-lo. Numa dessas execuções, um garoto escapa vivo, mas apenas por algum tempo, antes que os alemães percebam e o assassinem. Saul suspeita que seja seu filho e deseja dar-lhe um enterro digno. Mas os nazistas decidem que o corpo do garoto seja encaminhado à autópsia. 

Nesse ponto, vê-se qual o foco escolhido. A motivação para a ação de Saul não é pequena. Dar sepultura digna aos seus entes queridos é algo inscrito como necessidade vital no, digamos assim, inconsciente coletivo da humanidade. Antígona, de Sófocles, fala disso. A heroína arrisca a própria vida para dar enterro ao corpo do irmão. Parentes de vítimas de ditaduras se empenham ao máximo para resgatar os cadáveres dos militantes assassinados. É o tema, ou um dos temas, do comovente Nostalgia da Luz, do chileno Patricio Guzmán. 

De modo que a luta de Saul para dar um enterro humano ao seu filho é totalmente compreensível. Mesmo que, para tentar fazê-lo, ele seja obrigado a proezas indizíveis, arriscando a própria pele. Há um cálculo até certo ponto certeiro dos opressores, o de que os prisioneiros buscarão a vantagem pessoal e se prestarão ao mais vil dos serviços desde que lhes garantam a sobrevivência. Justo até certa medida, porque há um ponto imponderável, a partir do qual senão todos pelo menos alguns indivíduos colocarão a dignidade acima da própria vida. Essa é a busca frenética exposta nesse inquietante O Filho de Saul. 

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