Em "O Evangelho das Maravilhas" vale a superfície, não a profundidade

Arturo Ripstein reforça a característica obscuridade crítica de seu cinema com O Evangelho das Maravilhas, filme que esteve na seleção oficial de Cannes em 1998, e agora chega aos cinemas brasileiros. Outro filme que pode ser visto de Ripstein é Así és la Vida, uma produção do diretor mexicano deste ano, que está na mostra Brasil & Independentes. Vale uma comparação entre os dois. Primeiro, Paz Alicia Garciadiego assina o roteiro dos dois filmes. Também, ambos são árduos, penosos de serem vistos, intratáveis socialmente. Apesar de Así és la Vida ter uma história dramaticamente impostada, naturalista e sofrível por uma tragédia central, e Evangelho... ser guiado por uma narrativa surreal baseada numa desgraça fragmentada e coletiva, os dois possuem a linguagem anárquica e corrosiva peculiar a Buñuel, antigo mestre de Ripstein. O diretor mexicano trabalhou com Luís Buñuel em diversos filmes, até pouco antes de sua morte, em 83. E é louvável nesse doutrinamento a involuntária transparência do mexicano em querer dar uma certa continuidade às densas idealizações cinematográficas do professor espanhol. Mas resta a dúvida sobre o que quer dizer, afinal, esta sombria crítica de Ripstein. Ao assistir Evangelho... - um ótimo filme se considerado isolamente - é infalível perguntar sobre seus preceitos analíticos.O filme conta a história de um vilarejo, chamado Nova Jerusalém, que se localiza dentro de um campo militar, no México. Este vilarejo é na verdade uma localidade santa, onde uma seita evangéllica toma forma pelas mãos de Mamá Dorita (Katy Jurado), a guia espiritual local. A seita está em espera permanente, seja pelo Messias ou pelo Apocalipse, e ironicamente é vivida totalmente dentro tendo como alicerce o cinema hollywoodiano. Isso porque o marido de Dorita, Papá Basílio (Paco Rabal), é fanático por clássicos épicos religiosos - sobretudo Bem Hur e Os Dez Mandamentos - e assim faz com que toda figuração do povo da vila respeite aos trajes mostrados nos filmes, sem contar que durante as pregações são projetadas num telão produções americanas que trataram o tema anos atrás. Em determinado momento Basílio profetiza que "Deus criou o mundo, e o cinema, da mesma forma, cria mundos". A ironia em relação a essa idolatria é, aliás, o aspecto do filme mais conciso e interessante. A situação da pequena e pacífica vila começa a se revirar quando Dorita descobre, entre as mulheres virgens da aldeia (que são cuidadosamente separadas das "madalenas", pois só das imaculadas pode nascer o Messias), aquela que dará a luz ao Salvador, baseada numa marca no braço direito da moça e num videogame com o qual brinca - outra malícia do filme. O vilarejo começa a ruir e seguir mais para o cataclisma que para a salvação quando Dorita morre e Tomasa (Flor Eduarda Gurrola), a escolhida, descobre que a pureza do seu povo só pode ser atingida se ela centralizar em sua carne todos os pecados do lugar. São muitas as facetas descritivas atraentes do filme. A divisão da história em oito "Mistérios", por exemplo, dá uma mobilidade narrativa muito prestativa à Ripstein. Mas o tom do discurso se constrói sem se explicar e a denúncia se dissipa mais inusitadamente ainda, principalmente no fim do filme. Além do fato do espelho de Buñuel ser um vazio a parte - bonito pela intenção mas desnecessário pelo cuidadoso sarcasmo destilado pelos filmes de Ripstein. O Evangelho das Maravilhas, por estes motivos, acaba sendo um fatigante exercício mental que poderia estabelecer outras metas. No geral, é um filme que vale a pena ser visto pela história em si e pelas indiossincrassias do diretor - sem ter como objetivo maior a reflexão crítica da obra.

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