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Em novo livro, médico Atul Gawande faz um verdadeiro diagnóstico de sua profissão

'Mortais – Nós, a Medicina e o Que Realmente Importa no Final' é a quarta obra do americano filho de indianos, em que ele discorre com candor e coragem sobre os dilemas da medicina

Lucia Guimarães, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 04h00

NOVA YORK - Quanto maior a expectativa de vida, maior a contemplação da morte. O mundo enfrenta uma explosão de população idosa e uma medicina psicologicamente despreparada para lidar com esta realidade. É raro um médico refletir sobre os males de sua atividade com tanta clareza e graça literária. Mais raro ainda se este médico for um cirurgião, treinado para invadir o corpo dos pacientes com diferentes prognósticos de sobrevivência. Mas Atul Gawande se mostra o especialista ideal para fazer o diagnóstico de sua profissão. Gawande é cirurgião do prestigiado Brigham and Womens Hospital de Boston e professor de saúde pública da Universidade Harvard. É também um premiado colaborador regular da revista New Yorker e ativista em causas de saúde pública globais.

No seu quarto livro, Mortais – Nós, a Medicina e o Que Realmente Importa no Final, este americano filho de indianos discorre com candor e coragem sobre os dilemas do médico diante do paciente terminal. E reflete com eloquência especial sobre as escolhas feitas por seu pai ao enfrentar o câncer de medula óssea que o matou.

“A esperança não é um plano de ação”, costuma dizer Gawande, que conversou com o Estado de seu escritório em Boston. Lembra que sua avó morreu de malária num vilarejo indiano, quando já existia a cura para a doença. Quando um país emergente adquire acesso à medicina mais avançada, a primeira preocupação é com a sobrevivência, não a qualidade de sobrevida. Mas, à medida que o país enriquece, o público espera mais do sistema de saúde. Para Gawande, nada exemplifica mais esta expectativa do que a qualidade do fim da vida.

Ao longo da entrevista, o médico volta com frequência às lições aprendidas com o estágio terminal da doença do pai. “Para meu pai”, recorda, “o mais importante era ser capaz de sentar à mesa do jantar com a família e conseguir conversar.” Gawande critica os médicos por não saber ouvir a história dos pacientes. Diante da morte iminente, argumenta, a escolha médica deve ser compatível com o que a pessoa considera mais valioso, seja comer sorvete ou continuar assistindo ao futebol para a TV. “Não se deve infantilizar o paciente”, diz. Ele defende com empenho uma rede de saúde pública capaz de administrar tratamento paliativo e assistência que mantenha a dignidade dos doentes em casa ou em residências de cuidado paliativo, onde se possa manter a ligação com pessoas e atividades.

O autor desbanca o mito das sociedades tradicionais como mais receptivas ao fim da vida. Seu avô morreu em paz aos 108 anos, num vilarejo na Índia, cercado pela família. Mas este cenário idílico, nota Gawande, depende do enorme sacrifício de mulheres que cuidaram do patriarca. Nostalgia também não é um plano: “Na sociedade moderna, os jovens querem liberdade. Os filhos adultos precisam trabalhar”, lembra ele, que dedica um capítulo ao tema Assistência e descreve o sentimento de culpa da filha de um paciente de 88 anos que não tinha a estrutura doméstica para trabalhar e cuidar do pai. Além do desafio para a rede de saúde pública, o médico aponta para o sistema de pensão como um suporte fundamental numa era em que idosos vão viver mais anos com deficiência ou debilitados. 

“A maneira como uma sociedade lida com o nascimento e com a morte é um sinal de suas prioridades”, diz o médico, destacando a taxa alarmante de cesarianas desnecessárias nos partos do Brasil. Ele aponta para dois tipos de médicos. O que decreta, “isto é o que deve ser feito”. E o que apresenta as opções para o paciente, o “médico de varejo”, mais comum nos Estados Unidos. Mas, especialmente no fim da vida, ele acredita que é preciso evoluir para um terceiro tipo, o do médico conselheiro, atento ao bem-estar do paciente. 

Mas este terceiro tipo de médico precisa vencer a própria ansiedade com a morte. Gawande acha que o obstáculo maior não é o medo da própria mortalidade. “Enfrentamos a morte o tempo todo, mas precisamos resolver a ansiedade com o nosso papel, com o medo de parecer incompetentes”, diz. “Precisamos esperar o melhor, mas preparar o pior, o que significa chegar a um equilíbrio entre intervenção e cuidado paliativo.” Uma das mais importantes perguntas que faz ao paciente diante do diagnóstico terminal é, “Onde você acha que se encontra no momento?”. Ele reconhece que despejar uma montanha de informações de uma vez, sem escutar, não é o caminho para a pessoa que sabe que está mais perto da morte.

Outra admissão franca em Mortais é quanto os médicos erram o cálculo da sobrevida do paciente. “Erramos com frequência” diz, “superestimamos mais do que subestimamos. É fundamental falar de um período provável para quem vai escolher um tratamento invasivo.” O pai de Gawande não queria se submeter à quimioterapia e conhecer o prognóstico mínimo e máximo foi fundamental. Ele morreu seis meses depois de tomar sua decisão. “As palavras mais importantes que posso dizer”, afirma Gawande, “não são ‘você pode viver tanto tempo’ e sim, ‘estou preocupado com a seriedade da sua doença.’” No final, não é uma descoberta da medicina, mas a descoberta da humanidade sob o jaleco branco que faz a diferença.

MORTAIS — NÓS, A MEDICINA E O QUE REALMENTE IMPORTA NO FINAL

Trad.: Renata Telles

Editora: Objetiva (264 págs., R$ 29,90)

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