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Em novo filme, Johnny Depp enfrenta os desafios da inteligência artificial

Estrela de 'Transcendence', ator vive cientista que cria uma máquina que processa conhecimento e detém emoções humanas

Cindy Pearlman , The New York Times

14 de abril de 2014 | 15h18

E aí, Johnny Depp, do que trata seu novo filme, Transcendence? “Vejo este filme como um homem escolhido por Deus para cultivar uma longa barba”, diz Depp pensativamente. “Ele sabe que o resto do mundo será massacrado, mas que os animais virão até ele.” “Espere aí, isso é Noé”, ele diz, ajustando seu chapéu de feltro cinzento. “Ah, Noé! Ah, não, não, não!” É uma manhã ensolarada de domingo em Los Angeles e, enquanto Depp prossegue sua entrevista para promover Transcendence, uma coisa fica clara: o ator, bem vestido com um jeans preto, casaco escuro e camisa azul, está de bom humor.

O fato de seu último filme, O Cavaleiro Solitário (2013) ter sido um retumbante fracasso não contribuiu para ele levar a vida a sério. “Me desculpe, eu estava naquele filme Noé, também”, ele diz, rindo.“Fiz Russel Crowe. E vou só lhe dizer, aquela barba era um porre!” Na verdade, Transcendence, que estreia nacionalmente nos Estados Unidos no dia 18 de abril, tem algumas coisas em comum com Noé.  O filme é sobre um homem que, com fé absoluta no seu próprio trabalho e à revelia dos escárnios do mundo que o cerca, avança corajosamente para um novo futuro sem nenhuma garantia de que isso não o matará e a todo os demais no mundo tal como o conhecemos.

Depp faz o dr. Will Caster, um chefe de pesquisa em inteligência artificial cujos esforços para criar uma máquina consciente que combine o conhecimento cumulativo de toda a humanidade com todo um leque de emoções humanas, são altamente controversos. A situação sofre uma reviravolta quando Will é fatalmente ferido numa tentativa de assassinato por radicais contrários à inteligência artificial (IA).Antes de ele morrer, porém, sua mulher (Rebecca Hall) e seu melhor amigo (Paul Bettany), ambos colegas na pesquisa, carregam os padrões de seu cérebro na máquina na qual ele vinha trabalhando, e o próprio Will torna-se a máquina onisciente de seus sonhos.Nem é preciso dizer que as coisas não funcionam como ele havia esperado.  

Não demora para o “fantasma na máquina” tornar-se, ele próprio, uma ameaça, e seus amigos precisam decidir se desconectam a máquina matando, no processo, tudo que sobrou de Will. O filme marca a estreia na direção do respeitado cinegrafista Wally Pfister, mais conhecido por seu trabalho com o diretor Christopher Nolan. Ele filmou Batman Begins (2005), O Cavaleiro das Trevas (2008) e O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), e ganhou o Oscar por seu trabalho em A Origem (2010).

“Conheci Wally, ironicamente, num videoclipe para Paul McCartney que Paul me pediu para fazer, com Wally filmando para Paul”, diz Depp. “Eu conhecia o trabalho de Wally como diretor de fotografia. É lendário. No trabalho para Paul McCartney criamos uma cena em que Paul e eu tocaríamos uma guitarra. Eu o faria sutilmente me ensinar coisas, coisas dos Beatles.” “Nós ficamos amigos, de modo que quando este filme surgiu, eu fiquei fissurado”, prossegue.

“Wally tem o ímpeto, a paixão e as respostas.Mesmo quando não tinha as respostas, conseguia nos levar até onde nós tínhamos de ir.” É irônico, acrescenta Depp, que Transcendence o escale como um gênio tecnológico.“Não sou técnico”, diz ele. “As coisas sempre dão errado, especialmente entre mim e a tecnologia. Não sou absolutamente familiarizado com ela. Sou ligado demais à moda antiga até para imaginá-la. Qualquer coisa que eu precise atacar com meus polegares por algum período de tempo faz eu me sentir estúpido.” “Por isso tento evitar ao máximo a tecnologia – para proteger meus polegares, é claro.”

Do ponto de vista da atuação, o principal desafio foi que, durante a maior parte do filme, Will não tem um ser físico e só existe como uma imagem na tela.“Eu me senti um pouco como Max Headroom”, diz. “O desafio era mapear precisamente cada emoção e momento de crescimento em meu personagem à medida que ele evolui no computador. Tudo tinha de surgir na ordem certa.”  A ideia de carregar a mente de um homem num computador deixa poucas pessoas inteiramente confortáveis.“A coisa começa um pouco vaga”, diz Depp.

“Meu personagem questiona o que ocorreria nesta tecnologia de misturar homem com máquina. Quando ele está dentro do computador, as coisa são inicialmente um pouco vagas também. Ele a estará perdendo? Estará evoluindo? Qual será o resultado final? O homem estará brincando de Deus?” Minha analogia em minha cabeça era de um sujeito mediano que está aparando a grama de seu jardim”, prossegue o ator. “Aí ele consegue um trabalho de segurança.Três semanas atrás ele não tinha o uniforme.

Agora ele veste esse uniforme e se sente como o maioral!” “A maioria de nós já sentiu a raiva do segurança superzeloso”, diz Depp. “É como Transcendence e pôr minha mente naquele computador. Haverá alguma coisa dormente neste homem que estou interpretando que está pronta para ser inflada com este poder? Será que isso revela sua verdadeira personalidade? Será que isso o muda? Não sei”, diz Depp. “O que vemos no filme é Will crescendo dentro do computador num ritmo acelerado. Ele pode fazer coisas más – mas será que qualquer pessoa má acha que está fazendo coisas más?”

O filme figura como ficção científica, mas muitas ideias que ele explora já estão sendo abordadas na comunidade científica. “Parte da tecnologia neste filme já está ocorrendo”, diz Depp.“Carregar uma consciência humana provavelmente não está muito longe.Vai acontecer. Está muito perto, uma ideia que me parece muito assustadora neste momento.” Particularmente em seus numeroso filmes com Tim Burton, Depp é conhecido pelos visuais bizarros de seus personagens.

Para Transcendence, porém, ele permitiu que o personagem se parecesse muito com ele na vida real.“Para mim é sempre mais difícil e me expõe um pouco, interpretar algo que é próximo de mim”, diz Depp. “Tento ocultar, porque não suporto minha aparência, Acho que é importante mudar, e é interessante quando a pessoa pode mudar para seus personagens.” “Neste filme, eu sabia desde o começo que não havia a menor necessidade de partir para cabelos cor de rosa e narizes de palhaço.”

 A maioria dos próximos filmes de Depp envolverá graus consideráveis de transformação. Ele fará um negociante de arte na pista de ouro nazista em Mortdecai e o facínora da vida real Whitey Bulger em Black Mass.Recriará dois de seus papéis mais exuberantes como o Chapeleiro Louco em Alice no País das Maravilhas 2 e como o capitão Jack Sparrow – pela quinta vez – em Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales. Numa categoria própria está Into the Woods, uma versão cinematográfica do clássico conto de fadas em forma de musical de Stephen Sondheim em que Depp fará o lobo.

De todos estes projetos, o único que parece intrigá-lo mais é Black Mass. “A razão para fazer Bulger é tão óbvia para mim”, diz Depp. “É um personagem fascinante. Não creio que ele se pareça com qualquer um que já fiz, o que é importante. Estou muito empolgado por me enfiar naquela pele por algum tempo.” Uma coisa que todos estes filmes com certeza terão em comum: quando prontos, Depp não irá vê-los no cinema ou na televisão.“Deixo isto para os outros”, diz ele. “Assistir a minha atuação me deixa desconfortável, por isso tento evitar. Para mim, não faz sentido me assistir.”

O Depp fora da tela, que tem casas na França, em Los Angeles e nas Bahamas, está para se casar com a atriz Amber Heard, depois de haver rompido, em 2012, com a cantora/atriz francesa Vanessa Paradis, sua namorada durante 14 anos. Atualmente, diz o ator, o foco de sua vida são seus dois filhos com Paradis. Lily-Rose de 14 anos e Jack, de 11.“Meus filhos são minha verdadeira alegria”, diz Depp. “Eles deram uma razão para minha vida. E eu aprendo muito com eles. Nós mantemos conversas profundas sobre a natureza do universo e sobre o que está ocorrendo em Uma Família da Pesada. Eu amo a maneira como as crianças passam de um assunto a outro em questão de nanossegundos.” “Já disse isso um dia, mas não posso dizer que experimentei esse tipo de alegria antes de ter meus filhos.”

Tradução de Celso Paciornik

 

 

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