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Em nova 'temporada de caça', Woody Allen faz um de seus melhores filmes

Diretor faz referências a Roman Polanski e Mia Farrow em 'Um Dia de Chuva em Nova York'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 07h00

Há dois anos, Kate Winslet deveria ter recebido seu segundo Oscar ou, pelo menos, ter sido indicada para o prêmio da Academia por seu papel em Roda Gigante, mas, em vez disso, e no bojo de feministas pegando carona no movimento #MeToo, terminou se desculpando por haver atuado no Woody Allen. O caso do 49.º longa do autor, que estreia nesta quinta, 21, nos cinemas, talvez ainda seja mais emblemático. Após novas acusações de pedofilia por parte dos filhos adotivos do ator, diretor e roteirista, a empresa produtora Amazon chegou a cancelar o lançamento de Um Dia de Chuva em Nova York. Woody Allen foi à Justiça pedindo uma fortuna, um acordo foi feito e o filme estreia.

A vida não anda fácil para Woody, mas, aos 83 anos, ele não silencia e reage com indignação de artista. Nos anos 1950, depois que Elia Kazan aceitou colaborar com o macarthismo, todo mundo achou que ele estava liquidado em Hollywood. No livro com a entrevista que concedeu a Michel Ciment, Kazan contou que o ódio era tanto – aos outros e a ele mesmo – que jurou só fazer filmes duros, críticos, não importa a quem doessem. Woody Allen talvez tenha feito essa proposta a si mesmo, mas, como um velho hippie, parece ter expulsado o ódio de seu coração. Roda Gigante já era muito bom, melhor que Blue Jasmine, com o qual Cate Blanchett venceu seu Oscar de melhor atriz. Um Dia de Chuva consegue ser melhor ainda. Um compêndio de neuroses teen, ou de jovens, que se soluciona num acerto de contas com a idade adulta. E tudo numa Manhattan chuvosa, melancólica, embalada naquelas canções que Allen escolhe a dedo.

A trama não poderia ser mais alleniana. Um garoto chamado Gatsby – desnecessário acrescentar que de família rica – arranja uma namorada, também rica, no campus. Ela escreve para o jornal da faculdade. É cinéfila. Arranja uma entrevista com um renomado diretor – Rolland Pollard. Partem os dois enamorados para um fim de semana em Nova York, onde ela vai entrevistar o artista. Gatsby tenta manter-se anônimo para fugir à festa anual que sua mãe socialite promove. Pollard – o nome remete, obviamente, a Roman Polanski que, além de sofrer acusações de abuso (como Allen), ainda foi quem projetou a ex do cineasta, Mia Farrow, ao fazer dela a protagonista de O Bebê de Rosemary, em 1968. Ashleigh, a namorada de Gatsby, envolve-se com Rolland, que vive uma crise de meia-idade – falsa, parece –, e também com outras duas celebridades, o roteirista Jude Law e o astro Diego Luna. Todos homens maduros, mas que se revelam perfeitamente hábeis para tirar proveito de uma garota na flor da idade. Não, Ashleigh não é menor. Tem 21 anos, o roteiro fica claro.

De alguma forma, Woody Allen refaz seu clássico Manhattan, de 1979 – há 40 anos! –, em que ele próprio, ao som de Gershwin, manipulava uma garota de 17 anos, Mariel Hemingway, mas naquela época não parecia ser um problema. Agora é. Um Dia de Chuva tem uma cena 100% alleniana – na companhia de Ashleigh, Jude Law segue a mulher e descobre que ela está tendo um caso com seu ‘melhor’ amigo. Trocam acusações, e não apenas o diálogo é primoroso como Rebecca Hall, que faz o papel, confirma ser a mais alleniana das atrizes, na fase pós Diane Keaton e Mia. As grandes cenas de Um Dia de Chuva, porém, são outras – cenas que Woody Allen nunca havia filmado. Uma montagem paralela quando Gatsby toca piano (a jazzística Everything Happens To Me) na casa chiquérrima da ex-namorada e a irmã dela, que virou uma mulher sedutora – Selena Gomez –, arruma-se no quarto ao lado e a confissão da mãe, a veterana Cherry Jones, quando Gatsby vai, enfim, à festa em família, acompanhado por... Veja para saber por quem.

Justamente a confissão é a chave do filme, e um piscar de olho com F. Scott Fitzgerald porque, em O Grande Gatsby – que Mia interpretou no cinema, é interessante lembrar –, a origem da fortuna do milionário que promove aquelas festas é um tanto nebulosa. No final, e sem risco de spoiler, tudo se acerta. Woody Allen acerta contas com o fantasma de Mia, com os jovens, filhos adotivos ou não, oferece grandes papéis a Timothée Chalamet e Elle Fanning – mas, em cena, quem o emula (imita?) é Jude Law – e, no limite, celebra New York ‘in a rainy day’. Se não for incorreto dizer, em mais essa temporada de caça a Woody Allen, trata-se de um dos melhores filmes dele, e do ano.

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