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Em nova cópia, ‘Feliz Ano Velho’ retorna a seu visual de origem

Filme de Roberto Gervitz, baseado no livro do colunista do ‘Estado’, Marcelo Rubens Paiva, é exibido na Cinemateca

Luiz Zanin Oricchio, Impresso

28 Outubro 2018 | 21h14

Em cópia remasterizada, volta às telas Feliz Ano Velho (1988), filme de Roberto Gervitz baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. Autobiográfico, o livro revive o acidente que o deixou tetraplégico, fala de sua geração, e do pai assassinado pela ditadura, o deputado Rubens Paiva (1929-1971). À época do lançamento do livro, 1982, o Brasil vivia a fase final da ditadura, já bastante desgastada, ainda mostrando suas garras. O regime teria seu final com a campanha das Diretas e a transição democrática de 1985.

No filme, o protagonista Mário é interpretado por Marcelo Breda. Malu Mader aparece em dois papéis, como a namorada Ana e uma envolvente bailarina. O filme é estruturado em flashbacks, quando o jovem angustiado pela paralisia recorda seu passado, a militância política na Universidade de Campinas, a tentativa de formar uma banda de rock, etc. A pulsação do filme é jovem e conta a história de uma reconstrução pessoal através da escrita. A fotografia de César Charlone e a direção de arte de Clóvis Bueno banham a obra no tom onírico buscado por Gervitz.

Em texto enviado ao Estado, o diretor conta como optou por uma adaptação livre, em que “o mergulho que inicia o livro deixa de ter no filme um caráter meramente acidental e passa a ser um produto dos conflitos de Mário”. Marcelo perdeu os movimentos ao mergulhar num lago e bater a cabeça numa pedra.

Esse trauma, brutalmente real, é recoberto por uma simbologia, em que “o mergulho que o leva à paralisia física é expressão objetiva de algo que já vivia em sua psique, mas ao mesmo tempo, lhe permite elaborar uma nova consciência de si que o guiará por novo caminho. Desse modo, Feliz Ano Velho é um filme sobre o medo de viver e de se atirar na vida, desenhando o próprio destino”, diz.

A paralisia pode ser vista também como metáfora de um país àquela altura afundado em quase duas décadas de uma ditadura que parecia não ter fim, embora já estivesse em seus estertores – mas isso só se veria depois.

Gervitz fala também do mal-estar ao rever sua obra nos últimos anos. “Não conseguia chegar ao final, tal a precariedade do estado das cópias cinematográficas ou ainda da baixa qualidade técnica dos DVDs e das matrizes usadas pelas televisões.” Daí sua alegria em ver o trabalho devolvido ao padrão visual de origem. Nesta segunda, 29, às 19h, na Cinemateca Brasileira, Feliz Ano Velho será exibido ao público, com debate sobre o restauro após a sessão.

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