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Em 'Norte, O Fim da Historia', diretor faz filme político com influência de 'Crime e Castigo'

Longa é dirigido pelo filipino Lav Diaz

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2015 | 20h00

Não por acaso, Norte, o Fim da História, de Lav Diaz, começa por mostrar uma mesa em que alguns jovens conversam. Falam de política, basicamente. Ou, melhor, do fim da política, ou fim da história como afirma seu subtítulo. São estudantes. Um deles brilha, em particular: Fabian (Sid Lucero). Não é por acaso que os céticos brilham. A descrença, e um sentimento explícito de superioridade, o colocam fora do alcance dos outros. A pior discussão é com um niilista, que, em sua descrença radical, não tem nada a defender. Quem defende uma causa, sempre deixa um flanco aberto. Vemos então no filme esboçar-se um ambiente de Dostoievski, embora tudo se passe nas Filipinas.

Fabian seria uma espécie de Raskolnikov, de Crime e Castigo. Na genial obra do russo, temos a discussão do tema da culpa, a que leva o criminoso a deixar tantas pistas sobre seu crime que será virtualmente como se o confessasse. O que também pode ser interpretado como desafio à Justiça.

Desse modo, Fabian, em sua ruptura radical, encaminha-se para o crime. E, no entanto, quem teria motivos para matar a usurária Magda é o pobre trabalhador que vê seus bens penhorados e tenta recuperar uma peça de especial estima para sua mulher. E, naturalmente, é sobre esse pobre trabalhador que a culpa recairá, sendo então condenado à prisão perpétua.

O filme se desenvolve entre o sofrido cotidiano carcerário de Joaquin (Archie Alemania), a dura vida de sua esposa, Eliza (Angeli Bayani), e o comportamento cada vez mais paradoxal de Fabian. Há que levar em conta a peculiar relação de Lav Diaz com o tempo. Famoso pela enorme duração de seus filmes, em Norte, Diaz faz até um exercício de síntese – são “apenas” quatro horas e pouco. Isso quer dizer que a temporalidade é essencial à sua dramaturgia. Não apenas porque os planos sejam longos, mas porque cada ação dura segundo o interesse da história e não de qualquer conveniência exterior, como a duração “normal” de uma sessão de cinema comercial.

Essa ação do tempo produz efeitos no espectador. Acompanhamos de maneira comovida o calvário de Joaquin e notamos que ele se comporta quase como um santo. Diaz dialoga com o Dostoievski de Crime e Castigo, mas também com O Idiota, sendo Joaquin uma espécie de príncipe Michkin filipino. Sua bondade chega a ser perturbadora. Paralelamente, Fabian se comporta de maneira errática. Trabalha com amigos para que o caso seja reaberto, quase chega à confissão em um grupo de autoajuda.

Diaz não faz propriamente uma adaptação de um relato de Dostoievski, mas se propõe ressoar os textos do russo em sintonia com a realidade filipina, a herança autoritária dos tempos de Marcos, a Justiça kafkiana, os desajustes sociais, etc. Imersão na dimensão psicológica dos personagens, Norte não deixa de ser, à sua maneira, um incisivo filme político.

 

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