Netflix via AP
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Em 'No Caminho da Cura', terapia dramática ajuda vítimas de abuso por padres

Em documentário da Netflix, seis homens reencenam momentos dolorosos

Lindsey Bahr, AP

31 de janeiro de 2022 | 15h00

O cineasta Robert Greene conhece a responsabilidade de fazer um documentário. Não se trata apenas do filme em si, do público ou da narrativa, mas dos assuntos na frente da câmera. E, em No Caminho da Cura, disponível na Netflix, seus personagens foram seis homens que sofreram abuso sexual décadas atrás nas mãos de padres e clérigos católicos.

"Não sei se os documentários mudam o mundo, mas sei que eles alteram a vida das pessoas mostradas na tela", disse Greene. "Este é o meu sétimo e sei como isso pode afetá-lo positiva e negativamente. Se você sabe disso, você tem que trabalhar com esse foco, fazendo algo com isso. E é nisso que se resume este projeto."

Muitas ideias estavam girando em sua cabeça quando Greene viu no noticiário uma entrevista coletiva de quatro sobreviventes e seu advogado em Kansas City que acabou inspirando o projeto. Greene, um eterno estudante de documentários, estava pensando sobre a mudança no relacionamento com as câmeras, a ponto de continuarmos a fazer filmes e se elas poderiam realmente ser usadas para ajudar as pessoas. Ele havia lido recentemente o livro The Body Keeps the Score e foi apresentado à ideia da terapia dramática.

Então, decidiu ligar para a advogada que viu na TV, Rebecca Randles, para iniciar uma conversa sobre explorar sua história por meio dessa técnica.

"Não era sobre chegar até aqueles rapazes e dizer 'como posso ajudá-lo?' ou algo ridículo assim", disse Greene. "Foi assim: 'Rebecca, diga-nos por que isso não é uma boa idéia'. Mas ela não disse que não era."

Começou um processo de três anos em que os sobreviventes Joe Eldred, Mike Foreman, Ed Gavagan, Dan Laurine, Michael Sandridge e Tom Viviano se uniram e, com a ajuda da dramaturga Monica Phinney, criaram e realizaram cenas inspiradas em suas memórias. Greene estava preparado para parar a qualquer momento se a situação se tornasse muito difícil para eles ou parecesse estar fazendo mais mal do que bem. Mas sempre encontravam boas razões para continuar.

Desde sua estreia no Festival de Cinema de Telluride, No Caminho da Cura recebeu elogios quase universais, muitas ovações e até foi lembrado para uma indicação ao Oscar de melhor documentário. E a resposta desde que chegou à Netflix foi esmagadora para todos os envolvidos: familiares, amigos, estranhos e sobreviventes entraram em contato para expressar seu apoio ou contar suas próprias histórias.

"Os rapazes ainda tiveram que modular um pouco", disse Greene. "Esse é um filme que realmente não acho que poderia ter sido feito cinco anos atrás. Acho que o que estamos experimentando com toda a gama de outros sobreviventes que viram esse filme é essa ideia de 'Oh, meu Deus, você pode se segurar assim'. São seis homens muito diferentes, mas são homens, sabe? E eles choram e se abraçam e expressam amor e fraternidade de uma maneira incomum. Acredito que é muito inspirador."

No início do processo, Greene sentou-se em círculo com eles e prometeu que trabalhariam duro para encontrar o público certo. Afinal, o objetivo de fazer esses exercícios diante das câmeras era ajudar outros sobreviventes. “Muito da vida desses caras é ditada pela vergonha.

"Pode ser debilitante'', disse o cineasta. “Então, vê-los andando na frente do Metrograph Theatre e depois acompanhar uma multidão inteira se levantando e aplaudindo de pé. Quer dizer, quantas vezes na minha vida fui cínico sobre a ideia de uma ovação de pé depois de um documentário? Muitas vezes. Mas aceitamos isso em vez de ser cínicos. Acolhemos a beleza e o amor. Foi transformador para aqueles rapazes serem validados e dizerem: 'Olha, você fez bem. Sua vida  não se resume ao que aconteceu com você. Não eram mercadorias danificadas. Não eram objetos que foram destruídos permanentemente. Esses homens transformaram um veneno horrível em remédio.”

Greene continua, com satisfação: "Prometemos a eles que faríamos o nosso melhor e então (conseguimos) esse tipo de validação. Sou um ser humano profundamente falho, mas não os decepcionei a esse respeito. Nós não os decepcionamos".

 

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