Bruce W. Talamon/Universal Pictures
Bruce W. Talamon/Universal Pictures

Em 'News of the World', Tom Hanks vive um herói obstinado

Ator interpreta um gentil texano cuja vida itinerante e tranquila é interrompida pela chegada de uma garota; veja o trailer

Mark Kennedy/AP, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2021 | 05h00

Em seu novo filme, News of the World (Relatos do mundo), Tom Hanks anda a cavalo e maneja uma pistola. Alguns espectadores talvez pensem que este seja o seu primeiro papel de cowboy. Resposta: já se esqueceram de Woody (Toy Story)?

Tudo de Hanks – e não apenas a sua voz – é explorado em seu segundo papel de cowboy, interpretando o Capitão Jefferson Kyle Kidd em 1870, um gentil texano cuja vida itinerante e tranquila é interrompida pela chegada de uma garota.

O diretor e corroteirista Paul Greengrass reúne-se pela primeira vez com Hanks desde a sua experiência em Capitão Phillips, de 2013. Desta vez, eles optaram por abandonar o mar aberto em uma ambiciosa aventura que se desenrola firmemente em terra, baseada no romance de Paulette Jiles. É um filme impressionante do ponto de vista visual e que contém uma mensagem comovente sobre perdão e aceitação depois de um trauma.

Kidd guarda literalmente as feridas da Guerra Civil e encontrou uma maneira de viver como uma espécie de repórter, um homem que vai de lugarejo em lugarejo para ler as notícias da nação aos moradores destas comunidades, ou “para quem tiver 10 centavos e o tempo para ouvi-lo”.

A certa altura, ele encontra uma menina de 10 anos duplamente órfã – seus pais, colonos, morreram, e os americanos nativos que a criaram também se foram. Ela não fala inglês e assusta todo mundo. “Ela tem um olhar selvagem, não é mesmo?”, alguém comenta. Outro diz: “Tenho certeza de que esta criança é um problema”.

A menina tem alguns parentes a centenas de quilômetros de distância e, naturalmente, cabe a Kidd o papel de herói. “Esta menina está perdida. Ela precisa de um lar”, ele diz. Então, essas duas criaturas marcadas pela vida embarcam em uma odisseia épica – uma mescla de Rastros de Ódio com Bravura Indômita – em terreno hostil em meio de bandidos e, no caminho, ele a ensina a falar inglês, como um Henry Higgins cowboy. “Acho que nós dois vamos enfrentar demônios ao longo desta estrada”, ele observa.

É um filme feio e belo. Dá quase para sentir a sujeira, ouvir as pisadas nas ruas lamacentas e sufocar em meio à fumaça. Praticamente tudo fede a couro e gado molhado. Aqui, os cachorros latem sem parar, a poeira está em toda parte e as meias têm furos. Hanks se destaca neste mundo naturalista, mas não pelos motivos certos.

O seu personagem é um ex-soldado confederado, arrasado pelo linchamento de homens pretos, que até enterra piedosamente uma das vítimas. É com tristeza que vê os colonos matando americanos nativos para ficar com suas terras e americanos nativos matando os colonos por fazerem isto, em um círculo mortal do qual ele está fora. Ele sente a frustração entre os civis sulinos e as tropas da União, mas espera que no fim todas as partes consigam se entender. “Todos matamos. Todos nós”, afirma. “Os nossos são tempos difíceis.” Ao seu redor, há sujeira e violência e, no entanto, o capitão interpretado por Hanks não participa disto.

Este é o grande ponto fraco do filme. O roteiro quer sugerir que o nosso paciente capitão está repleto de culpa por tudo o que fez como soldado, mas o Hanks que vemos é excessivamente puro e nobre. Quando alguém pergunta sobre os motivos de sua busca: “Eles pagam você ou você faz isto apenas por seu coração bondoso?” e a resposta é uma só: “Quero tirar você de toda esta sujeira e matança, tirá-la disto”, diz para a menina.

O Kidd de Hanks jamais é o primeiro a atirar, mesmo quando é perseguido por assassinos. Seu sonho é unir o Norte ao Sul mostrando a vaqueiros do Texas o que eles têm em comum com os mineiros da Pensilvânia. Kidd não recua, mesmo quando enfrenta uma multidão racista – o verdadeiro campeão dos pobres e da democracia. Esta é a mensagem infeliz do filme para o espectador em 2021: “A guerra acabou”, ele diz. “Precisamos parar de lutar.”

A abordagem de Greengrass aqui é mais negligente – certamente por seu trabalho nos filmes de Jason Bourne –, mas ele consegue aumentar a tensão praticamente em cada cena, muitas vezes com um único ator vasculhando o horizonte. O cinegrafista Dariusz Wolski enquadra as situações como um verdadeiro artista usando cuidadosamente o claro e escuro. Muitas das melhores cenas são silenciosas, ressaltadas pela coluna sonora maravilhosamente triste de James Newton Howard.

Qualquer pessoa que interprete a menina está diante de um desafio, mas a atriz alemã Helena Zengel é fantástica. Ela consegue ser selvagem em uma cena, desafiadora em outra, curiosa na próxima ou emocionalmente fechada. Ela se expressa de uma maneira impressionante, mesmo sem diálogo.

O filme, já adquirido pela Netflix, chega no mesmo momento em que podemos ver um George Clooney grisalho com uma garota muda, unidos em uma busca igualmente perigosa em O Céu da Meia-Noite. Seguramente, chegou o momento de os heróis de Hollywood, hoje na meia idade, mostrarem seu lado paternal. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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