Em mostras e na TV, as várias faces de Raul Cortez

Muito se falou de Raul Cortez, morto na semana passada. Resta agora relembrar a parte do seu trabalho que ficou registrada e, para isso, a Cinemateca dá um pequeno passo, trazendo dois filmes dos quais o ator participou - Vereda da Salvação (1965), de Anselmo Duarte, e Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho. É pouco, diante dos 28 trabalhos que realizou para o cinema.Pouco, mas já é alguma coisa. No filme de Anselmo Duarte, o personagem de Cortez é o de um fanático religioso que procura explorar o desespero de camponeses sem terra. Esta adaptação um tanto pesada da peça de Jorge Andrade favorece no entanto o trabalho de Cortez, que sabia trabalhar tanto no registro contido quanto no próximo ao histrionismo.Já em Lavoura Arcaica, temos uma participação que, se não é tão extensa, parece marcante. Nesse filme denso, às vezes sobrecarregado de literatura, a cena do pai (Cortez) e seu discurso à mesa permanecem na memória como um dos momentos marcantes do cinema brasileiro atual.É curioso também que um dos melhores trabalhos de Raul Cortez apareça na mostra do Centro Cultural São Paulo dedicada a Anselmo Duarte. É que, em companhia de Duarte, Cortez viveu um dos seus grandes papéis no cinema em O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person. Trata-se da violenta história de um erro judicial acontecido em Araguari (MG), no qual dois irmãos são inculpados por um crime que não cometeram. O truculento policial é vivido por Anselmo, enquanto Cortez interpreta um dos irmãos. Um papel marcante.Também o Canal Brasil se incorpora às homenagens ao ator, colocando vários dos seus filmes em sua programação. Desta terça-feira a sexta serão apresentados no canal 66 da Net, sempre às 20h, os longas Janaína, a Virgem Proibida (1972), Capitu (1968), Tempo de Violência (1969) e Roberto Carlos a 300km por Hora (1971). No sábado, passa o último trabalho de Raul Cortez nas telas - O Outro Lado da Rua, este às 23 horas.Vale a pena destacar este último filme de Raul porque se trata de um trabalho sensível, em tema que já vem se incorporando ao repertório dos cineastas - a questão da terceira idade. Num registro delicado, Marcos Berstein trata da relação entre dois personagens, vividos por Raul Cortez e Fernanda Montenegro, envolvidos tanto no plano dos sentimentos quanto numa trama policial. Às vezes um pouco acadêmico no tratamento, o filme não esconde porém o talento dos seus protagonistas. Raul Cortez imprime a seu papel a densidade que costumava aplicar em seus trabalhos no cinema, arte que tinha em grande conta, apesar da fama conseguida no teatro e na TV. Raul Cortez - Vivendo o aqui e o agora. Hoje, 15h10 e 20h10, Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho; 18h10, Vereda da salvação, de Anselmo Duarte. Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207, tel. 5084-2177, ramal 210. Grátis

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