Em 'Mogli', tudo parece realista, mas a desproporção revela o faz de conta

Mogli viveu três vezes na tela antes de chegar agora à interpretação do garoto Neel Sethi. A nova versão é a melhor de todas. Com exceção do garoto, tudo é feito digitalmente. A selva, as feras. Em apenas 15 anos, desde que um seminário, em Cannes, sacramentou o digital, a nova ferramenta tecnológica mudou tudo. O realismo de Mogli é extremo, ou assim parece. Mesmo o mais distraído dos espectadores, porém, deve dar-se conta de que há uma desproporção. A pantera, o urso, o tigre parecem bigger than life, maiores que a vida. E, quando o bebê coloca a mão na boca da pantera, e Mogli seduz Baguera - uma amizade para toda a vida -, o efeito é mágico. Puro encantamento.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2016 | 03h00

O primeiro Mogli, em 1942, foi o lendário Sabu, na adaptação live action que Zoltan Korda fez do livro clássico de Rudyard Kipling. Em 1967, a Disney lançou a animação dirigida por Wolfgang Reitherman. Foi o último filme supervisionado pessoalmente por Walt e ele morreu em 1966, antes da estreia. Mogli - O Menino Lobo, a versão quase cinquentenária, tem a cara do produtor. A cena final é antológica. Mogli, atraído pela menina, abandona a selva e segue para a cidade. Embora tristes, seus amigos Baguera e Balu sabem que será melhor para ele voltar ao convívio dos humanos. Amparam-se mutuamente, e cantando e dançando, apesar da tristeza, voltam para a selva. Em 2003, em outra animação dirigida por Steve Trembirth, Mogli deixa a selva para reencontrar Baguera e Balu na selva.

Jon Favreau vem se exercitando no digital desde Zathura, em 2005. O sucesso da franquia O Homem de Ferro transformou-o num dos Midas de Hollywood. Produtor algum lhe nega o que quer que seja. Favreau escolheu fazer Chef, um filme pequeno, sobre gastronomia - encantador. Voltou aos orçamentos milionários para recontar a saga do menino lobo. Uma fábula de amizade, de devoção. Mogli e Baguera, Mogli e Balu. E o menino que não recua diante do tigre sinistro, que quer dominar a selva. Jon Favreau dirigiu um filme que faz o sonhado ‘crossover’. Atinge adultos e crianças. Os pequenos vão adorar vê-lo dublado. Os adultos devem preferir o original, até porque é a maneira de ouvir a voz sexy de Scarlet Johansson como Kaa, a serpente. Ela não só encanta, e quase devora Mogli, como canta nos créditos finais. Destemido, Mogli não foge. Inicia uma nova era na selva. União, comprometimento, respeito aos direitos. O final de Walt Disney era emocionante. O novo é... lindo. Jon Favreau conseguiu. 

 

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