Em memória aos mestres do cinema

Ambos nasceram sob a versatilidade e o empirismo de Câncer, e morreram em março, sob o inevitável fado taurino. E além das coincidências astrológicas, outra que destaca o diretor americano Stanley Kubrick (1928 ? 1999) e o polonês Krzysztof Kieslowski (1941 ? 1996) é a genialidade de suas criações. O primeiro transformou cada cena de seus filmes numa verdadeira desconstrução do racionalismo humano. O segundo fez de sua filmografia uma ode luminosa aos aspectos mais sombrios do amor e da morte. A terceira coincidência - talvez não a definitiva - é que ambos deixaram roteiros ou idéias de filmes inacabados. A possibilidade de concluí-los deslumbra seguidores, produtoras, diretores e amigos dos mestres. Os fãs desamparados poderão conferir em 2001 aquilo que já está em produção este ano: Heaven, um dos roteiros da trilogia que Kieslowski deixou (completa por Purgatory e Hell), e A.I. (iniciais de artificial inteligence), projeto de Kubrick baseado num conto de Brian Aldiss. O fato é que estes filmes ? cujas produções foram recentemente confirmadas ? têm criado uma gigantesca expectativa, suscitando todo tipo de boato. Algumas das histórias são absurdas; outras revelaram-se verdadeiras. De qualquer forma, acenderam a ansiedade de milhares de pessoas, fosse pela Internet ou através da imprensa.Dante - Em relação à Heaven, por exemplo, chegou-se a especular que Julie Delpy, que atuou em A Fraternidade é Vermelha (último filme do diretor), estaria no papel principal ? uma suspeita até ingênua de tão óbvia. Hoje se sabe que a atriz principal do filme será Cate Blanchett. Ela está terminando de gravar Lord of the Rings (O Senhor dos Anéis), de Peter Jackson, para seguir à Itália dar andamento às filmagens. Fará o papel de uma escocesa que se muda para a região da Toscana da Itália e começa a namorar um jovem do local.Para a direção do roteiro que Kieslowski redigiu junto com Krzystof Piesewícz, seu parceiro habitual, já havia sido levantado o nome de Agnieska Holland (Europa, Europa), diretora polonesa que escreveu o roteiro de A Liberdade é Azul, de 1993. De fato não foi um boato, mas simplesmente o resultado de um nome cogitado pela Miramax, co-produtora do filme, mas depois descartado. Optou-se por Tom Tykwer, uma das melhores promessas atuais do cinema alemão, diretor de Corra, Lola, Corra, sucesso na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Outra parte da produção visual ficaria por conta da empresa do próprio Tykwer, a X-Filme Company.Para a produção executiva do filme já se confirmou Anthony Minghella (diretor de O Paciente Inglês e O Talentoso Ripley), em conjunto com Cédomir Kolar (produtor de Antes da Chuva e Trem da Vida). Outro rumor sobre a trilogia Heaven, Purgatory e Hell ("Céu", "Purgatório" e "Inferno") é que Kieslowski teria se baseado em A Divina Comédia de Dante.Projeto antigo - Steven Spielberg já está gravando as primeiras cenas de A.I., com o garoto Haley Joel Osment (Sexto Sentido), Jude Law (Gattaca), Frances O?Connor e Jake Thomas. Bonnie Curtis (O Resgate do Soldado Ryan) está produzindo, e Jan Harlan, irmão em segundo grau de Kubrick, está na produção executiva. A história se baseia parcialmente no conto Supertoys Last All Day Long ("Superbrinquedos Duram o Dia Todo"), do escritor norte-americano Brian Aldiss. A história se passa por volta da metade do século 21, quando o progressivo aquecimento da Terra provoca o derretimento das calotas polares e a subida do nível do mar, deixando as cidades costeiras do planeta submersas. Uma máquina nova, com inteligência artificial e ciente de sua própria existência, é criada pelo homem para lidar com a prevenção de maiores desastres ambientais.Embora esteja muito mais bem definido do que Heaven, a cria de Kubrick sofreu uma especulação muito maior, e talvez tudo já fizesse parte da mente do pragmático cineasta, que começou a divulgar seu projeto em 1994. Naquela época, este seria seu próximo projeto oficial ? deixou de ser quando decidiu fazer De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman.O primeiro boato, divulgado em listas de discussão pela Internet, dizia que Kubrick estaria já filmando, desde 1992, com o garoto do filme O Parque dos Dinossauros, Joseph Mazzello. Kubrick estaria fazendo sessões a cada dois anos com o intuito de registrar o envelhecimento do garoto. Nesta fase, os primeiros testes de efeitos especiais também estariam em andamento. Em 1997, os principais aspecto da fotografia do filme já estariam finalizados.Em 1998, os boatos sobre Mazzello foram desmentidos. Os rumores teriam sido diparados quando o garoto assinou um contrato de dois anos com o diretor para fazer um filme sobre o Holocausto, que nunca saiu do papel.Em maio de 1999, poucos dias após a morte de Kubrick, a escritora inglesa Sara Maitland publicou no jornal londrino The Independent um artigo com o título Meu Ano com Stanley. No artigo, ela confessa ter sido inquirida pelo diretor americano para desenvolver o roteiro de A.I. e conta o ano que ficou em contato com o diretor até desistir do projeto, entre 1995 e 96. "Eu tinha o tamanho errado de ego: muito grande para submeter minha criatividade ao que ele queria pacificamente, e muito pequena para acreditar que de vez em quando eu até podia ser melhor que ele", escreveu Sara em um dos trechos desse artigo. Ela descreve que precisava de tempo e silêncio para desenvolver o roteiro, enquanto Kubrick a pressionava por um enorme imediatismo. Mas, ao mesmo tempo, "ele precisava de um escritor que lidasse com as pequenas nuances da relação entre os frágeis movimentos dos corações dos homens e, especialmente, porque a maternidade era um tema importante, dos corações das mulheres. Kubrick reconheceu em meus contos que é isso que eu faço". Segundo Sara, eles começaram a entrar num desacordo cada vez maior, o que deixou ambos desestimulados pelo trabalho, até o rompimento final. Esse fato teria coincidido com a pausa na pré-produção para a realização de De Olhos Bem Fefchados.Em setembro de 1999, o jornal London Sunday publicou a iniciativa de Steven Spielberg de realizar o projeto de Kubrick. Já se sabia, na realidade, que quando Kubrick anunciou seu novo filho, também conversara bastante com o amigo Spielberg sobre o projeto. A família de Kubrick logo apoiou a decisão de Spielberg, iniciando, assim, os contatos com a Warner Bros. para produção. Numa matéria do jornal New York Times, também de setembro, Jan Harlan diz que "ele (Spielberg) poderia traduzir perfeitamente tanto o lado humano como o filosófico da história". Spielberg também escreveria o roteiro ? primeira vez desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Logo depois de começar a acertar produtores e elenco, no mês passado foram iniciadas as primeiras tomadas, na pequena cidade de Talbot Country, no estado de Maryland, Estados Unidos. Um jornal local divulgou a informação, adicionando ainda que um clube de campo do lugar fechou um acordo oficial com a Warner. Spielberg estava fazendo, nesse clube, gravações de 360º da paisagem, para depois adicionar com computação gráfica construções futuristas ao fundo, além de fazer alguns testes com o elenco. Silêncio - Apesar dos próprios atores e envolvidos na produção deixarem escapar à imprensa americana o andamento das filmagens, as produtoras e distribuidoras não comentam quase nada sobre o assunto.A Miramax, responsável pelo lançamento de Heaven, recusou-se a dar maiores informações que não o nome do diretor, produtor e atriz, "porque o filme estaria numa fase muito prematura de produção", segundo Annette Savitch, assessora do escritório americano. Vivian Meyer, relações públicas da Dreamworks, que acertou a distribuição internacional de A.I. com a Warner Bros, também foi pragmática com a reportagem e disse que era "muito cedo para dar maiores informações". As representantes nacionais das produtoras também mal puderam dar novas informações. Um release com informações bem miúdas foi divulgado à imprensa sobre Heaven, e nada sobre A.I..

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