Em "Madame Satã", a construção da brasilidade

É um filme sobre a construção daidentidade. E não uma identidade qualquer: João Francisco dosSantos, gay que trabalhava como camareiro de uma estrela caídana Lapa, no Rio. esculpiu para si mesmo a persona de MadameSatã, malandro temido na noite da Lapa, dos anos 1940 emdiante. Como um preto pobre e homossexual, cujo sonho eravestir-se de mulher e ser uma estrela, podia enfrentar no braço,de igual para igual, os maiores machões do pedaço e aindavencê-los? Karim Ainouz, um cearense de 37 anos, filho de paiárabe e mãe brasileira, interessou-se pelo personagem numa épocaem que estava fora do Brasil. Preocupado em restabelecer os próprios vínculos com oPaís de origem, ele imediatamente ficou tocado pela exclusãosocial de João Francisco. "Ele foi sempre excluído, pormúltiplas razões. E nunca aceitou isso passivamente; reagia nabase da violência ou da doçura, nunca se deixando abater." Oator Lázaro Ramos, que faz o personagem, concorda com aabordagem do diretor, mas diz que ainda está aprendendo muitocom Madame Satã. "Leio coisas que nem imaginava e que aspessoas, os críticos principalmente, estão descobrindo." Paracriar esse personagem tão complexo, Ramos não podia entrar nasua pele simplesmente na base da intuição. "Houve todo umtrabalho de preparação do físico para que eu me apossasse dopersonagem." Nesse sentido, ele considera muito valiosas assemanas de preparação e ensaios que antecederam a filmagem. Ramos tem revisto o filme muitas vezes, nas pré-estréiasque acompanha pelo País e até no exterior. Só ele sabe o querepresentou o papel, em termos de desgaste físico. Mas o queadmira hoje são os momentos de doçura do personagem. "JoãoFranscisco tem cenas com Laurita que me encantam pelas nuancesque Marcélia Cartaxo conseguiu imprimir à sua personagem deprostituta." Marcélia diz que só se sentiu assim tão próxima deum ator ao trabalhar com José Dumont. "Acho que a parceria comLázaro foi muito forte, muito rica. Ele é um grande ator, umator completo: canta, dança e representa." Ramos diz que seriafácil fazer uma Madame Satã caricatural, meio Rainha Diaba.Marcélia também acha que poderia carregar no estereótipo daprostituta boazinha. "Felizmente tínhamos o Karim (o diretorAinouz) para monitorar nosso trabalho; ele foi sempre muitoseguro do que queria", diz. Foi há pouco mais de dez anos que Karim Ainouz descobriuo personagem, ao ler sua biografia publicada num volume dacoleção Encanto Radical. O texto de Rogério Durst deflagroualguma coisa dentro dele. Ainouz achou que Madame Satã davafilme e, mais, que era o filme que sonhava fazer. Pesquisoumuito - no Arquivo Nacional -, foi ao Nordeste, onde ele nasceu,visitou o túmulo de sua mãe. Queria entender essa figura a quemNoel Rosa, segundo reza a tradição, dedicou o samba MulatoBamba. De toda a sua pesquisa deduziu que Madame Satã era ummitômano. "Construiu uma persona para si mesmo e ainda fez comque todo o meio no qual se inseria participasse do mito." Ainouz recriou a Lapa das primeiras décadas do séculopassado em casarões do Catete, no Rio, maquiados para abrigar ahistória de João Francisco dos Santos. Esqueça a maquiagem -pode soar como algo negativo, nestes tempos em que tanto sediscute, no Brasil, a transformação da estética da fome dos anos1960 numa cosmética da fome. Ainouz acha o debate necessárioporém equivocado. "Estão transformando uma discussão estéticanuma questão moral", diz. Elogia o trabalho do fotógrafo WalterCarvalho, quase sempre apontado como o artífice dessa ´cosméticada fome´, como um exemplo de fotografia que serve ao projeto."Ele capta toda a sordidez daquele universo decadente; só umgrande artista para fazer isso." Música, figurinos, direção de arte. Mais do que umareprodução minuciosa da época retratada, Ainouz pediu econseguiu de seus colaboradores que o ajudassem a criar umuniverso visual baseado na emoção. Madame Satã é muitas vezesvisto pelo filtro da emoção de João Francisco, como se houvessealguma coisa a impedir uma visão clara e objetiva dos fatos.Para Ainouz, o mais importante é que a capacidade de JoãoFrancisco em transformar as condições adversas em momentosprazerosos é a essência da brasilidade. "É uma estratégia deresistência política e cultural tipicamente brasileira", diz.Desta maneira, por meio da identidade de João Francisco/MadameSatã é a própria identidade brasileira que ele põe na tela.Madame Satã - Drama. Direção de Karin Aïnouz.Brasil-França/2002. Duração: 105 minutos. 16 anos

Agencia Estado,

07 de novembro de 2002 | 15h36

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