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Em 'Luca', deficiência de personagem não o define

O mais recente filme da Pixar traz um personagem que nasceu sem um braço. Veja como um diretor do documentário 'Crip Camp: Revolução pela Inclusão' se tornou consultor do projeto

Laura Zornosa, The New York Times

07 de julho de 2021 | 15h00


Num pequeno barco pesqueiro no Mediterrâneo, os olhos de Alberto Scorfano pousam no braço direito de Massimo Marcovaldo, que acaba no seu ombro. Massimo percebe que ele olha espantado. Então volta os olhos para a manga da sua camisa, presa com um anzol.

“Um monstro do mar o engoliu”, resmunga.

“O que?'', Alberto reage.

Massimo dá uma risada. “Não. Foi assim que vim ao mundo”.

Ele recolhe sua rede de pesca, prende um pedaço de madeira entre os dentes e o retira da rede com seu braço esquerdo.

Essa cena, no meio do filme Luca, a mais recente produção da Pixar, deu um passo raro ao retratar um personagem com uma deficiência, neste caso, sem um braço - sem que isso seja uma característica que o define. Ambientado numa cidade portuária fictícia chamada Portorosso, na Riviera italiana, o filme narra a história de Luca Paguro (na voz de Jacob Tremblay) e Alberto (Jack Dylan Grazer), ambos jovens monstros do mar explorando o mundo humano.

Em Portorosso, Luca e Alberto encontram Giulia (Emma Berman), uma garota de cabelos vermelhos disposta a vencer o torneio anual de triatlo da sua cidade.

E aí entra a história Massimo (Marco Barricelli - pai de Giulia - um pescador imponente que canta as árias transmitidas pelo rádio enquanto limpa os peixes para o jantar. À primeira vista, sua estatura e seus arpões de pesca intimidam os dois garotos. Depois da cena do barco, contudo, a maré começa a mudar: Luca e Alberto começam entrar no grande coração de Massimo.

 


Desde que o filme entrou na Disney+, no mês passado, a internet vem aplaudindo o personagem de Massimo pela inclusão na tela de alguém com deficiência física, com tanta destreza. Os produtores disseram que a decisão de apresentar um pescador nascido com apenas um braço foi proposital.

“Nós achávamos que seria muito difícil fazer uma representação que fosse verdadeira em termos de local e tempo”, disse o diretor Enrico Casarosa. “Mas quando a ideia do personagem Massimo surgiu, nós a adotamos imediatamente”.

O filme é ambientado na Itália pós-guerra, onde Casarosa passou sua infância, e ele inicialmente imaginou como modelo para o personagem Massimo o jornalista antifascista Ítalo Calvino, que combateu na resistência italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez ele tivesse perdido seu braço na batalha, pensou o diretor.

Ou talvez ele tenha nascido assim. Ao estudar os detalhes do personagem de Massimo, a equipe de Luca, incluindo Casarosa e a produtora Andrea Warren - decidiram consultar Jim LeBrecht, ativista pelos direitos dos deficientes e também cineasta.

“Foi uma conversa importante”, disse LeBrecht, que co-dirigiu o documentário indicado ao Oscar Crip Camp - Revolução pela Inclusão, lançado no ano passado.

Juntos eles chegaram à conclusão de que a frase “foi assim que vim ao mundo” era ótima. Como Luca e Alberto, Massimo também nasceu diferente. O pescador encarou sua deficiência de um braço com destreza a vida inteira e permaneceu uma figura amada, respeitada e uma parte vital da sua comunidade.

“Vamos além das histórias trágicas, onde uma pessoa com deficiência apenas faz parte de uma história se ela estiver focada no seu problema”, disse LeBrecht. “Vamos fazer o que já fizemos no caso de outras comunidades marginalizadas no decorrer dos anos e dizer, “Vejam, somos parte do tecido da sociedade”.

Le Brecht nasceu com espinha bífida, doença que afeta a medula espinhal e ele anda de cadeira de rodas.



Sheriauna Haase, 14 anos, assistiu ao filme Luca no dia em que foi lançado, quando visitava as Cataratas do Niágara no Dia dos Pais (celebrado em junho nos Estados Unidos) com a família. (Seus dois irmãos, de quatro e cinco anos de idade, insistiram o dia inteiro para ver o filme).

Sheriauna, dançarina e estudante do segundo ano do ensino médio, nasceu sem a mão esquerda. Ela viu a cena do barco de pesca e riu com a frase “um monstro marinho o comeu”. Às vezes, ela também dá sua própria resposta quando perguntam “o que aconteceu com seu braço?”)

“Se olham espantados, eu respondo: “na verdade, foi um ataque de um tubarão. Meu braço foi engolido”, disse ela. “Mas depois eu me sinto mal quando olho para as pessoas e estão tão chocadas e aterrorizadas. “Oh, meu Deus, desculpe. Olha, estava brincando. Eu simplesmente nasci assim”.

A representação é importante para ela. E com quase dois milhões de pessoas vivendo sem um braço nos Estados Unidos, Hollywood começa a prestar atenção. Mas há uma linha tênue entre a representação orgânica e a tokenização forçada, como Andrea Warren, a produtora, salientou.

“Você não consegue satisfazer a todos em cada filme'', disse ela. “É preciso ser autêntico para ele ter significado. Essa conexão e esse reconhecimento não irão se manifestar se a sensação que você passa é de uma algo apenas simbólico, alguma coisa que foi simplesmente jogada ali”.


Tradução de Terezinha Martino


Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times 

 

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