20th Century Fox
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Em 'Logan', Wolverine ‘mortal’ paga tributo ao grande mito do western

Embora não seja um grande cineasta, diretor James Mangold possui o que se pode chamar de projeto autoral

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 Março 2017 | 04h00

P’ra ruim não serve, decididamente. Logan possui méritos e o maior deles é o partido do diretor James Mangold de criar seu personagem numa chave bem intimista. Logan está isolado, cuidando do velho Professor Xavier. O próprio herói é um homem cansado, descrente de si e do mundo. Vivem num silo abandonado e o próprio cenário define a construção dramática dessas figuras à deriva. Foram-se os tempos dos mutantes, dos confrontos, das lutas. Logan ganha a vida num serviço de limusine. E aí surge a garota que vai sacudir esse universo paradão.

Ela possui poderes especiais – também é mutante. E pode ser filha de Logan, produto de um experimento (como ele). Começa a caçada humana. Pancadaria, perseguições, explosões. Há um médico sinistro, que conduziu o experimento, e existem seus sicários, um deles completamente sinistro com seu risinho de maluco de carteirinha. Esse é o quadro geral. Logan, a contragosto, embora não queira mais comprometimento, toma a menina sob sua proteção. A grande cena do filme é aquela que está no trailer. Hugh Jackman, as mãos calejadas, as lâminas que brotam das falanges quando ele é provocado e libera seus instintos. A menina que toma nas suas as mãos dele. “Você ainda tem uma chance”, como lhe diz Xavier.

Embora não seja um grande cineasta, James Mangold possui o que se pode chamar de projeto autoral. Interessa-se por um tipo de ação, por um tipo de personagem. Lá atrás ele dirigiu Cop Land, a Cidade dos Tiras, vendido como o grande papel dramático de Sylvester Stallone, e Garota: Interrompida, que deu o Oscar de coadjuvante para Angelina Jolie, na sua fase pré-estrela. Vieram depois Johnny & June, Os Indomáveis, Encontro Explosivo, Wolverine: Imortal e, agora, Logan, que bem poderia ser Wolverine: Mortal. São filmes de gênero, mas só Encontro Explosivo/Knight and Day, com Tom Cruise e Cameron Diaz possui a euforia da ação. Em todos os demais, Mangold parece buscar/privilegiar o momento de crise, em que o herói está cansado, mas, mesmo assim, precisa seguir em frente.

É um pouco a situação de Logan. Cria-se a família substituta – Logan e a ‘filha’ –, à qual se contrapõe a família ‘real’, aquela que o herói em fuga encontra na estrada. O trio pai, mãe e filho acolhe em casa o trio pai, filha e avô (Xavier). O vilão celerado irrompe na casa e com um clone de Logan que provoca a matança. Essa questão da ‘imagem’ é decisiva, como se Logan, o verdadeiro, não pudesse fugir a seu destino. É aqui que entra o western. Em 2007, 50 anos depois do original de Delmer Daves, Mangold aceitou refazer 3:10 To Yuma. O filme antigo, com Glenn Ford e Van Heflin, chamou-se no Brasil Galante e Sanguinário. O remake, Os Indomáveis.

O pacato fazendeiro Cristian Bale, querendo ganhar o respeito do filho, escolta o pistoleiro Russell Crowe. O bandoleiro é sedutor, perturba a cabeça do garoto. Essa questão do respeito está no western (clássico) de George Stevens cujas imagens invadem Logan Os Brutos Também Amam. O pistoleiro Alan Ladd resolve levar uma vida pacata no vale, na fazenda de Van Heflin. Seu passado aparece sob a forma do sinistro Wilson/Jack Palance, que Shane tem de enfrentar, e tudo é visto pelo olhar do garoto, Joey (Brandon De Wilde). Shane vence e diz a Joey – “No more guns in the valley”, Não haverá mais armas no vale. E parte. É a chave de Logan, mas fica um pouco diluída no desfecho, com todos aqueles pequenos mutantes exibindo suas habilidades. Mangold não é tão rigoroso quanto deveria (ou talvez gostasse de) ser. O filme tem muita gracinha desnecessária. É o tributo ao gênero, mas é digno, e já é alguma coisa.

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