Em Locarno, 'Parque Via' mostra monotonia ao extremo

Filme mexicano dura uma hora e meia, mas poderia ser compactado em uns 5 minutos americanos

Rui Martins, especial para o Estado,

08 de agosto de 2008 | 13h07

O filme é mexicano, Parque Via, dura uma hora e meia, mas poderia ser compactado em uns 5 minutos americanos, porém, seu diretor, o espanhol Enrique Rivero, ex-emigrante nos EUA onde era bancário no Citibank, quis mostrar o peso do tédio e da monotonia, insuportáveis para muitos expectadores mas vivida pela maioria das pessoas no seu repetitivo cotidiano. O papel principal é vivido por um mexicano, de origem índia, como zelador de uma rica mansão de uma abastada proprietária. Como a mansão, sem habitantes, foi posta à venda, Beto, seu nome, ali vive como um prisioneiro, encarregando-se apenas da manutenção da residência e repetindo seus gestos diários de uma existência isolada e associal, embora em plena capital mexicana.  Uma vez por semana, recebe a visita da proprietária, que inspeciona a casa, e de uma mesma prostituta com a qual mantém uma certa amizade e contatos frios por telefone.  Ao fim de alguns anos e do filme, o repetitivo é quebrado pela venda da casa e tanto a proprietária como sua família percebem ser difícil reintegrar Beto, habituado ao seu claustro de zelador, num outro trabalho, incapacidade de reintegração social sentida pelo próprio Beto e que o leva ao gesto inesperado do fim do filme. Entretanto, o diretor Enrique Rivero relaciona a solução violenta escolhida por Beto, como uma conseqüência direta de sua única relação com o mundo exterior vivida com a televisão. Como dama de companhia, nos seus momentos solitários, a televisão só oferecia a Beto programas de violência ou noticiários violentos. Enrique Rivero vê um efeito de causa e efeito no mundo monótono e repetitivo de Beto, sem outros contatos e referenciais com a sociedade. Indagado, se a violência televisiva poderia ter um efeito real nocivo para a sociedade, Rivero prefere constatar haver uma sujeição dos programas da teve à violência por gerar aumento de audiência. E deixa a advertência para que as pessoas evitem se submeter a esses programas, pois o recurso à violência pode resultar de situações violentas armazenadas vistas no ecrã. Ex-bancário, sufocado com o repetitivo vivido dentro dos bancos, Rivero retornou a Madri, onde fez curso de cinema e participou do primeiro filme há oito anos. Tendo vivido alguns anos no México, Rivero vê uma enorme fratura social na sociedade mexicana, uma sociedade dividida em duas castas - de um lado os ricos geralmente de origem européia e do outro os pobres, na maioria de origem índia. A miséria de um cotidiano repetitivo, como robotizado e sem significado vivido por Beto, prefigura nesse caso a miséria de toda uma população marginalizada nas atividades mais ingratas e menos interessantes.  A surpresa para os expectadores foi a de saber que Beto, na verdade existe, é o próprio ator amador usado por Rivero, Noberto Cora, presente em Locarno - ele trabalha há mais de 30 anos, numa rica mansão, na Cidade do México. As pessoas não fazem idéia, quando possuem servidores fiéis como empregados domésticos, da condição a que estão condenados esses empregados, afirma o diretor Rivero. Extrapolando-se, a sociedade de castas mexicana, onde os índios sabem seu lugar, não é muito diferente da situação vivida pelos descendentes dos negros em outro países, com seus numerosos e fiéis Betos nos trabalhos repetitivos e alienantes a serviço de ricos proprietários.

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