Em livro e nas telas, imagens do povo brasileiro

Quem já leu a nova versão de Cineastas e Imagens do Povo garante que Jean-Claude Bernardet acrescentou ao livro famoso de 1985 capítulos provocativos que inscrevem a reedição num território próprio, na fronteira entre a crítica e a reflexão. Cineastas e Imagens do Povo está sendo reeditado pela Companhia das Letras. Paralelamente ao relançamento do livro, o Centro Cultural São Paulo promove, de hoje a domingo, um ciclo de filmes que leva o mesmo título. São representações do povo brasileiro na tela, assinadas por importantes diretores ligados ao Cinema Novo e não apenas ao movimento que floresceu nos anos 1960.A programação do primeiro dia começa com o documentário Greve, de João Batista de Andrade, prossegue com outro documentário, ABC da Greve, de Leon Hirszman, e culmina com a ficção de Memórias do Cárcere, que Nelson Pereira dos Santos adaptou do romance de Graciliano Ramos. Amanhã, passa o documentário Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, seguido da ficção de O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade, e um programa inteiro formado por documentários de curta e média-metragem, como Maioria Absoluta, de Leon Hirszman, e dois clássicos de Geraldo Sarno, o excepcional Viramundo e Viva Cariri! A programação prossegue exclusivamente com documentários como A Pedra da Riqueza, de Vladimir Carvalho, Aruanda, de Linduarte Noronha, Congo, de Arthur Omar, e Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla, entre outros títulos notáveis.É uma seleção e tanto. Cobre décadas de história do País, ajudando a entender como o cinema participou (participa, ainda e sempre) da problemática de auto-entendimento do próprio povo brasileiro. Documentários como Aruanda e Viramundo surgiram nos anos 1960, contemporâneos da eclosão do Cinema Novo. Marcam uma fase em que o Brasil estava se descobrindo. Houve, por certo, representações anteriores do povo brasileiro no cinema brasileiro, mas de maneira geral elas eram marcadas por estereótipos, caricaturas ou então destinavam ao personagem "popular" uma importância secundária. Com os diretores do Cinema Novo, o cinema brasileiro experimenta a necessidade de pôr na tela a cara do País. Arnaldo Jabor escreveu certa vez que foi um trabalho de mapeamento. Cada rosto, cada barraco, palafita ou mocambo era filmado como se os diretores estivessem, (re)descobrindo o Brasil.Na maioria desses filmes - documentários, quase sempre -, o povo é visto pelos olhos de diretores de classe média. Eram diretores ideologizados, que queriam fazer a revolução - estética, social e política. Alguns dos filmes estabelecem o que Bernardet chama, em seu livro, de voz do dono. Há um narrador que, em off, tudo sabe e explica, apoiado na autoridade de um discurso científico. Esse modelo de alguma forma foi contestado pelo profeta do Cinema Novo, Glauber Rocha, na cena que rompe com o esquematismo maniqueístas da arte de esquerda no Brasil. Em Terra em Transe, o poeta Paulo Martins tapa a boca do personagem que representa o povo e ainda pergunta: "Já pensaram neste homem no poder?" Glauber foi chamado de fascista, mas na verdade estava inaugurando a crise de consciência da esquerda nacional.Cineastas e Imagens do Povo - Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto. Rua Vergueiro, 1.000, tel.: 3277-3611. Até domingo

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