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Em ‘Life’, Anton Corbjin retrata James Dean pelo criador do mito, Dennis Stock

Filme do neerlandês é, na verdade, mais sobre o fotógrafo da revista 'Life', que percebeu o carisma e pressentiu a fama do ator

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2016 | 16h00

Antes de virar cineasta, e dos bons, o neerlandês Anton Corbjin se exercitou por muito tempo fazendo fotografia e, depois, videoclipes do Depeche Mode, do Nirvana e do U2. Seu primeiro longa causou burburinho no circuito cult. Control é sobre o vocalista Ian Curtis, da Joy Division, que se matou em 1980, com apenas 23 anos. Corbjin proporcionou na sequência seu papel mais cool a George Clooney em Um Homem Misterioso – um assassino profissional que se esconde numa cidadezinha italiana e fica amigo do padre local, com quem mantém longas conversas. O cinéfilo poderia perguntar-se – para onde iria o cineasta? A resposta está em Life – Um Retrato de James Dean, que estreou na quinta-feira, 21.

Corbjin é atraído pelos mitos, mas gosta de revelá-los pelo reverso. Ian Curtis é belo, jovem, encrenqueiro. Não consegue harmonizar as próprias expectativas nem as dos outros. Um Retrato de James Dean é sobre o jovem Jimmy, antes do estrelato. Ele já havia feito pequenos papéis e estrelado um filme que faria história, Vidas Amargas, mas o hoje clássico de Elia Kazan ainda não havia estreado. O diretor e o estúdio (a Warner) botavam fé de que ele iria estourar, mas ainda era só uma possibilidade. James Dean interpretara também Juventude Transviada, de Nicholas Ray, e viraria o emblema dos jovens rebeldes dos anos 1950. Mas quando estreou o terceiro grande filme que Dean havia feito em sequência – Assim Caminha a Humanidade/Giant, de George Stevens –, em 1956, ele já estava morto. Morrera naquela estrada do Texas, na direção de seu Porsche. Virou mito.

O filme de Anton Corbjin é anterior ao mito. Na verdade, é sobre o homem que talvez tenha criado o mito de James Dean, o fotógrafo Dennis Stock, da revista Life, a mais popular da ‘América’, naquela época. Dennis havia conhecido James Dean, percebera seu carisma e pressentiu que algo muito importante se passaria com aquele garoto. Convenceu a revista a dar-lhe a capa – algo raríssimo, dada a pouca projeção que ele tinha. E Dennis fez mais – acompanhou Jimmy de volta à casa, à fazenda de Indiana em que crescera, e da qual saiu para tentar conquistar Nova York (e Hollywood). Corbjin filma essa ligação breve, mas intensa. O olhar de Dennis sobre Jimmy.

Numa entrevista que deu ao Estado, o diretor esclareceu – quando lhe propuseram o roteiro de Luke Davies, ele não ficou muito interessado. Um filme sobre James Dean não estava entre suas prioridades, principalmente após o retrato de Ian Curtis. James Dean morreu no mesmo ano em que ele nasceu, mas isso não o tornava especial para Corbjin. O roteiro lhe deu outra chave, e foi a persona do fotógrafo. Corbjin chegou a Jimmy por intermédio de Dennis, daí o título. Life – é a vida de Jimmy, mas é principalmente a revista, que permitiu a Dennis acompanhar duas semanas da intimidade do futuro astro, revelando-o ao mundo. O fotógrafo, portanto, e o próprio Corbjin foi fotógrafo profissional, e famoso, tendo clicado astros da música pop para capas de discos que se tornaram itens de colecionadores.

Como o cineasta não se cansa de esclarecer, o belo de Life é algo que ele pôde sentir, pessoalmente, muitas vezes. A ligação do fotógrafo com seu tema – o objeto fotografado –, em especial se esse tema se oferece ao olhar do público. Há 60 anos, Dennis Stock intuía o que Anton Corbjin hoje sabe – que o público e o privado se confundem na vida das celebridades e que o mundo iria evoluir para se transformar, cada vez mais, numa sociedade (civilização) da imagem. O começo de Life já projeta o espectador num clima. O jovem Jimmy fuma solitário no canto de uma piscina. É uma festa em Hollywood, na casa de Nicholas Ray, e existem rumores de que Jimmy está sendo escolhido pelo anfitrião para estrelar Juventude Transviada. Pelo que se comenta de Vidas Amargas, que ainda não foi lançado, Jimmy é a aposta mais ‘quente’ de Hollywood.

Dennis está na tal festa, e se aproxima de Jimmy. De alguma forma ganha sua confiança. Ele é arisco, desconfiado. Não é o tema de Life, mas sempre houve rumores – outros – de que Jimmy era gay enrustido. O chefe de estúdio, Ben Kingsley, pergunta a Jimmy quão inteligente ele é, já vendo nisso um perigo. Não é um jovem como os outros. Dennis tem uma ex-mulher e um filho a quem não dá atenção. Mais que atração sexual, ele vê na aura de Jimmy Dean um tema – e um passaporte para o próprio sucesso. Dennis é Robert Pattinson, que após o estouro na série Crepúsculo, preocupa-se cada vez em seguir carreira no cinema autoral, fazendo escolhas ousadas. Dane DeHaan é Jimmy. Do ponto de vista da semelhança física, ele talvez se aproxime mais do jovem Brad Pitt, mas o próprio Brad já fez uma espécie de James Dean em Thelma & Louise. Boa parte do fascínio de Life vem dos atores, e da entrega deles a seus personagens.

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