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Em LEGO, Batman (enfim) é capaz de rir da própria sisudez

Divertida versão Lego do personagem desbancou ‘Cinquenta Tons Mais Escuros’ e liderou a bilheteria nos EUA

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2017 | 04h00

Batman parece ter se perdido no meio do caminho. Entre tantas versões nas telonas, da concepção gótica de Tim Burton, passando pelas cores esquisitas de Joel Schumacher, a versão carne e osso de Christopher Nolan e o sisudo Ben Affleck da visão de Zack Snyder, algo foi esquecido. A excitação e o novo foram deixados de lado em cada um dos filmes do Morcegão lançados desde a década de 1990 – e foram oito! – para se buscar a adaptação mais perfeita das histórias em quadrinhos para a tela grande. Respeitaram arquétipos diferentes do personagem, inovaram em outros, deixaram outros para lá. Esqueceu-se, contudo o tamanho do personagem. O Homem-Morcego é, provavelmente ao lado de Superman, o maior e mais popular super-herói dos quadrinhos. Seu símbolo é reconhecível em qualquer canto do planeta. Diretores e roteiristas se digladiam tanto para achar o tal Batman definitivo que esqueceram que poderiam se divertir com ele. 

É o que Lego Batman: O Filme, animação em cartaz no Brasil e que desbancou o filme Cinquenta Tons Mais Escuros na bilheteria dos EUA, se propõe a fazer. E se deu bem nisso. Curiosamente ao criar a versão mais palhaça de Batman desde a série da década de 1960, quando o manto era vestido por Adam West, o personagem ganha profundidade em aspectos de sua personalidade que não haviam sido explorados no cinema. Quantas vezes foi debatido se o queixo de algum ator era perfeito ou não para usar a máscara do Morcego a cada anúncio de novo filme? Quantos fãs chiaram ou zombaram da voz rouca que o personagem ganhava ao se vestir para combater o crime? Sabe-se lá quantas vezes questionaram se determinada luta contra o vilão era digna do maior detetive do universo dos quadrinhos? A versão de brinquedo do personagem faz com que toda a discussão seja irrelevante – desnecessária. 

Parte-se de um personagem já estabelecido e reconhecido – o jovem órfão que combate o crime com incríveis bat-bugigangas e um cérebro invejável – e, por isso, não é preciso se prender a tantas amarras. O novo Batman, por exemplo, escancara o tamanho do ego do personagem, a incapacidade dele em lidar com sentimentos afetivos e que vive em total solidão. São aspectos que foram pincelados nas HQs, ignorado nos filmes e escancarados aqui. 

Lego Batman acerta em pegar emprestada aquela versão que surgiu em Uma Aventura Lego e lhe dar mais de duas horas de tela. E é uma comédia ainda mais ousada do que a antecessora, também criado no universo dos bloquinhos de montar. Além do exterior superficial, do sujeito banhado no próprio ego e fissurado pelo número de gomos que seu abdômen de tanquinho exibe (são nove), somos apresentados à intimidade do Morcego e seus cantos sombrios. Tudo sem perder a leveza. 

Bruce Wayne, órfão desde pequeno, não sabe o que é amor. Amar e ser amado. A máscara que ele usa ali esconde ele de si mesmo, o protege. Até em casa, ele não tira o capuz, mesmo que já esteja vestindo um robe vermelho e saboreando um jantar de lagosta aquecido no micro-ondas. É difícil, para o patrão Wayne, como diz o mordomo Alfred, entender o conceito de família. Numa virada curiosa, contudo, Bruce adota um jovem garoto, órfão como ele, e é jogado em um ambiente familiar que há tempos não tinha. 

Esse Batman, felizmente, não é perfeito. Erra, e muito, até entender o mundo à sua volta. A direção de Chris McKay, arrojada, não teme tirar sarro do personagem, de suas outras versões na telona e, como uma criança brincando com os blocos de montar, tem a liberdade de fazer o que quer com o personagem. Altera até a relação do personagem com o arquirrival desde sempre Coringa – o que dá início ao arco principal do longa. Com isso, McKay cria o Batman mais excitante em décadas. E, em tempos da sisudez de Ben-Affleck-o-dono-do-queixo-perfeito, rir parece ser o melhor negócio. 

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