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Em 'Jimmy's Hall', heróis podem ter fraquezas e os antagonistas, dignidade

Há o humor que não precisa estar ausente mesmo nas lutas sociais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2015 | 05h55

Costuma-se dizer que cada época possui a sua “agenda”. Isto é, seu elenco de temas considerados importantes, vitais, dignos de discussão, urgentes. Na nossa, ocupam o topo da agenda os direitos civis, pets, ciclovias, relacionamentos, celebridades, acessibilidade e sustentabilidade. O tema das lutas pela igualdade social caiu da agenda. Ou foi para o fim da fila, como assunto dispensável. Mas não para Ken Loach, como se vê por Jimmy’s Hall, seu novo filme.

Diretor politicamente engajado, de obras marcantes como Riffy Raff, Terra e Liberdade, Pão e Rosas, Meu Nome É Joe, Ventos da Liberdade e outros, o britânico Loach mantém uma carreira de coerência única no mundo do cinema. Sua temática gira em torno dos movimentos sociais e, juntamente com seu roteirista Paul Laverty, vê na luta de classes o motor da História - exatamente como ensinava certo filósofo alemão, tão destratado quanto não lido.

Jimmy’s Hall conta a história real de James Gralton. Exilado por dez anos nos Estados Unidos, Jimmy retorna à sua Irlanda natal em 1932.

Reencontra um país atrasado, cheio de pobreza, dominado por um governo corrupto e uma Igreja autoritária. A pedido de jovens insatisfeitos com o ambiente social, reabre seu salão de danças, que funciona também como escola de várias disciplinas, ponto de encontro e discussão de ideias avançadas para a época. Compreensivelmente, enfrenta oposição tanto da Igreja quanto do governo, cúmplices na manutenção de um status quo injusto. Jimmy não está pregando a luta armada, não está se insurgindo diretamente contra o sistema. Apenas fornece um ambiente que coloca ideias em debate, o que, como se sabe, em determinadas circunstâncias pode ser muito perigoso.

De modo que o embate mais visível será entre o poder eclesiástico, que se quer diretor exclusivo da consciência irlandesa, e o livre debate de ideias. Ora, Jimmy é tido como notório comunista, ateu e perigoso.

Logo, deve ser combatido e desalojado de seu salão, antro onde se pode “corromper a juventude”, acusação similar à sofrida por Sócrates na Atenas antiga.

Mesmo trabalhando com temática tão grave, Jimmy’s Hall revela uma insuspeita leveza. Nele, há sequências ligeiras - e deliciosas - como a de Jimmy ensinando às moçoilas irlandesas os passos de dança aprendidos no Harlem, em Nova York. Ou, quando a mãe de Jimmy serve chá, com toda serenidade, aos policiais que vêm à casa prender seu filho.

Barry Ward interpreta de forma correta Jimmy, inspirado no ativista James Gralton. Seu opositor, o padre Sheridan, é vivido pelo ótimo ator Jim Norton. Há uma densidade dramatúrgica em Jimmy’s Hall, que permite jogar com situações de confronto, encenadas por grandes atores, sem apelo ao maniqueísmo. É óbvio que a simpatia do cineasta recai sobre o ativista - não existe cinema sem ponto de vista. Mas isso não o obriga a transformar oponentes em caricaturas, como acontece nos blockbusters infantis de Hollywood. Aqui, os personagens têm nuances. Os heróis têm suas fraquezas; os antagonistas podem ter dignidade.

E há o humor que não precisa estar ausente mesmo nas lutas sociais. Pelo contrário. Quem é feliz e ama a vida, combate melhor e com mais determinação. Impossível ver Jimmy’s Hall sem lembrar a frase da anarquista Emma Goldman: “Jamais participaria de uma revolução em que eu não pudesse dançar”.

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