Em 'Jersey Boys', Clint faz uma emocionante soma de gêneros

A narrativa em puzzle adota diferentes pontos de vista para fazer a história avançar; cada personagem conta sua versão da história

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2014 | 09h35

Críticos dos EUA não têm sido muito generosos com o novo Clint Eastwood. Jersey Boys têm recebido críticas mistas, mas, no geral, há um tom de reclamação porque o diretor não fez um musical tradicional e misturou gêneros. Há os que lembram Os Aventureiros do Ouro, de Joshua Logan, de 1969, como um desastre em que o jovem Clint, havia pouco chegado da Itália – onde se destacou nos spaghetti westerns de Sergio Leone –, e outro durão, Lee Marvin, cantaram e dançaram disputando a atenção de Jean Seberg. Na verdade, em retrospecto, o cinema de Logan, incluindo os musicais, tem tido até mais defensores do que o diretor talvez merecesse, mas Clint e música nem de longe são estranhos. Basta lembrar de Bird e dos documentários que ele fez sobre jazz.

Jersey Boys estreia quinta e, antes disso, Clint ganha maratona no MIS, Museu da Imagem e do Som. A novidade do novo filme talvez seja o fato de o diretor, ao adaptar o musical de sucesso da Broadway, ter escolhido uma banda como os Four Seasons, que se exercitaram em áreas como pop, rock, soul, doo-wop e até disco, num registro extenso que talvez ajude a entender por que os garotos de New Jersey demoraram para estourar. Estavam na estrada desde os anos 1950, mas o sucesso só veio em 1962. Numa fase de grande revolução musical, os Four Seasons construíram-se em torno da voz angelical de um ítalo-americano, Frankie Valli. O próprio Frankie era o bom-moço do grupo, em que havia gente que entrava e saía da cadeia como se fosse a coisa mais natural do mundo. E era – em New Jersey, nos anos 1950, quando o destino dos ítalo-americanos que não cantavam nem eram ases de algum esporte, invariavelmente era morrer na guerra, ou na Máfia.

Foi justamente o que interessou a Clint, que faz, mais de 20 anos depois da versão de Martin Scorsese, o seu Os Bons Companheiros. Goodfellas não mais no Brooklyn, mas em New Jersey, onde o ‘padrinho’ Christopher Walken cobra do seu ‘menino de ouro’, Frankie, se ele continua dando assistência à família. Essa tanto pode ser a família biológica, que ele forma, como a do crime, à qual volta e meia paga tributo ou pede ajuda, em momentos de dificuldade, como quando o parceiro se endivida tanto que a banda toda pode não apenas ser dissolvida, como morta.

O que os críticos norte-americanos reclamaram é o que faz a beleza de Jersey Boys. O filme é, simultaneamente, aventura juvenil, drama familiar, de Máfia e musical. Para não deixar dúvida de que poderia ter feito o musical sonhado por muitos críticos, Clint encena um número final realmente notável, motivo pelo qual se recomenda que o público permaneça sentado quando começarem a rolar os créditos. É deslumbrante. Mas tem mais – Clint desenvolveu um relato no estilo do cultuado Rashomon, de Akira Kurosawa, de 1950. Não devia ser um filme que jovens ítalo-americanos de New Jersey vissem, na época, mas, na Itália, Kurosawa foi essencial para Leone, e todo mundo sabe que o grande Sergio foi um dos mentores de Clint (com Don Siegel).

A narrativa em puzzle de Rashomon, como a de Cidadão Kane, de Orson Welles, uma década antes, adota diferentes pontos de vista para fazer a história avançar. Cada personagem conta sua versão dos fatos e, assim, Jersey Boys mostra que as coisas nunca são simples, e todo mundo pode se justificar pelo que faz, ou fez. Os jovens entram em rota de colisão, a banda original implode, o indesejável é chutado, mas todos voltam, já velhos, para um tributo. E aí está toda a beleza do filme. Ninguém chega a ser Clint sem acusações de haver sido um trator, passando sobre amigos e aliados para chegar ao panteão. Aos 84 anos – nasceu em 1930 –, Clint volta-se para o passado como quem busca a (auto)compreensão. Ele já fez isso, em parte, nos filmes que compõem o ciclo do MIS, em sua homenagem. Um monumento do cinema decifra a própria juventude. É maravilhoso.

MARATONA CLINT NO MIS (Av. Europa, 158 - R$ 6)

Invictus (16h)

Em 1994, Nelson Mandela é eleito presidente da África do Sul. O homem que passou boa parte de sua vida na cadeia poderia chegar ao poder cheio de rancor, sedento de vingança. O que ele quis foi unir o país – brancos e negros. Conseguiu-o através do esporte, apoiando a equipe de rúgbi que disputou o campeonato mundial. Não mais diferenças raciais. Todo mundo unido na cor da bandeira e do uniforme. Morgan Freeman, o velho Mandela, arrisca tudo nos jovens de sua seleção, Matt Damon à frente. Clint, aos 79, faz dos jogos uma guerra. E, da juventude, uma glória.

Gran Torino (18h30)

Um ano antes de Invictus, o velho Clint, aos 78 anos, criou essa saga de um velho colecionador de carros – o Gran Torino do título – que vive isolado numa vizinhança violenta. Ele é intolerante com os asiáticos, a quem culpa pelo que está ocorrendo ao redor, mas como as coisas nunca são simples adota dois deles, de quem ser torna protetor, e por quem se sacrifica. Depois de empunhar o Magnum 44 de Dirty Harry, Clint vira sacrificial, cristão? A morte sempre foi um tema caro para ele – lembrem-se de Menina de Ouro. O velho Clint e a juventude. Bela emoção. 

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