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Em ‘Invencível’, Angelina Jolie molda um herói a contragosto

A construção do olhar e um ator excepcional, Jack O’Connell, fazem a grandeza do longa dirigido pela atriz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2015 | 03h00

Havia a expectativa de que a Academia de Hollywood corrigisse a injustiça do Globo de Ouro e abrisse espaço para Invencível, o segundo longa de Angelina Jolie como diretora. Angelina não teve o reconhecimento da crítica (a Associação dos Correspondentes Estrangeiros) e só teve o reconhecimento parcial da indústria (a Academia), com a indicação de Invencível a prêmios técnicos, inclusive o de melhor fotografia para Roger Deakins. O público é que foi fiel à estrela transformada em diretoras. Invencível foi muito bem nos EUA. Como irá no Brasil? Como se comportará a crítica?

Angelina e o marido Brad Pitt viraram uma entidade nos EUA. O casal 20 do show biz. Não deve ser fácil conviver com isso – para eles nem para os outros. Invencível baseia-se no best seller de Laura Hillenbrandt, que já escreveu outro livro de sucesso, e que também virou filme, contando a história de um cavalo – Seabiscuit – que se tornou lenda. Seabiscuit tinha um problema na pata. No turfe, dizia-se que não conseguiria correr, mas o treinador certo e o jóquei apaixonado fizeram dele o campeão dos campeões. Coincidência, ou não, Invencível conta a história de outro corredor, e outro sobrevivente. Não mais um cavalo de corrida, mas um homem, Louis ‘Louie’ Zamperini.

Acompanhamos Louie na tela desde garoto até que, idoso – e aí é o Louie de verdade –, ele realizou o sonho de correr na Olimpíada de Tóquio. São décadas de vida. Como um garoto criador de encrencas se transformou em corredor, como participou (e venceu) na Olimpíada de Berlim, como virou aviador (e bombardeiro) na 2.ª Guerra, como seu avião caiu no mar e ele sobreviveu durante 47 dias, como sobreviveu a uma prova mais dura ainda – o inferno de um campo de prisioneiros no Japão. Cada uma dessas etapas daria um filme. Angelina, como diretora, não abre mão de nenhuma. Toma tempo para contar cada uma delas. Alguns críticos andaram reclamando que o filme é longo, lento – não se você entrar no clima.

Existem coisas que reclamam tempo para ser mostradas na tela. Invencível já foi definido como um relato ‘convencional’. Com esse tempo, esse classicismo? Um dos maiores diretores de fotografia do mundo, Roger Deakins está na capa na edição deste mês da revista American Cinematographer. É a Bíblia dos fotógrafos. A edição também contempla Livre/Wild, o longa de Jean-Marc Vallée que candidatou Reese Whiterspoon ao prêmio da Academia. Deakins conta qual foi a referência de Angelina Jolie. Essa mulher sabe das coisas. Durante todo o tempo, ela tinha em mente um filme que talvez não seja tão conhecido de Sidney Lumet, mas pode muito bem ser a obra-prima do diretor morto em 2011 – A Colina dos Homens Perdidos, com Sean Connery.

Existem similaridades com Furyo – Em Nome da Honra, de Nagisa Oshima. Louie conhece o inferno no campo, num antagonismo pessoal com o oficial japonês que o comanda. Há algo do erotismo velado do filme de Oshima. Para o japonês, quebrar o norte-americano vira uma questão de honra. A referência é mais de quem vê. Segundo Deakins, o modelo foi Lumet, e Angelina tinha verdadeira obsessão pelo rigor clássico da Colina. Na ficção de Lumet, durante a 2.ª Guerra, militares ingleses indisciplinados são enviados a um campo na Líbia para ‘recondicionamento’. Connery, eterno 007, tromba com o sádico sargento. O choque é inevitável – e brutal.

Pode-se ver em Invencível uma espécie de fábula do heroísmo, mas se Louie Zamperini vira herói é a contragosto. Garoto, ele está a ponto de perder-se quando o irmão, vendo-o correr da polícia e dos desafetos, força-o a se tornar corredor. É o olhar do irmão, que vê nele uma coisa em que o próprio Louie não acredita, que faz dele um campeão. No campo de prisioneiros, é sempre o olhar do outro que comanda o (digamos) destino de Louie. É porque ele olha o japonês nos olhos que o outro o arrebenta. Ele sofre, mas os demais prisioneiros o forçam a ir ao limite, a resistir, como se sua destruição pudesse ser a de todos.

Criança, Louie esconde-se numa de suas fugas e vê a mãe preparar a massa. No mar, à deriva, mantém o amigo vivo contando-lhe daquele nhoque. E quando, tudo acabado, ele vai ao quarto do ex-oficial e encontra o cajado com que apanhava, vê também uma foto de família – o japonês com seu pai – que nos diz tudo sobre ele. No mar, Louie encontra Deus, mas o relato não força a barra. O que Invencível propõe não é a construção do herói. É uma fábula de confiança e sobrevivência, tal o subtítulo do livro de Laura Hillenbrandt. Do ator – Jack O’Connell – que faz o papel, o mínimo que se pode dizer é que é excepcional.

A estrela que descobriu sua vocação e gosta mais de dirigir

O que parecia capricho em ‘Na Terra de Sangue e Mel’ ganha consistência e vira um vigoroso estudo de personagem

Talvez seja aquilo que os franceses chamam de clin d’doeil, um piscar de olhos cúmplice. No mar revolto de Invencível, após o acidente com o avião, Louis ‘Louie’ Zamperini e seus dois amigos sobreviventes estão cercados de tubarões e um deles, no desespero, dá um soco num dos predadores marítimos. Por mais que Angelina Jolie esteja dizendo que descobriu sua verdadeira vocação, e que gosta mais de dirigir do que atuar, não renega seu passado. Como Lara Croft, ela já sobreviveu socando um tubarão, lembram-se? Com o marido, Brad Pitt, criando a entidade ‘Brangelina’, Angelina se tornou a personalidade número 1 da indústria. Tornaram-se – os dois.

Como atriz, ela ganhou o Oscar – de coadjuvante – por Garota, Interrompida. Sempre houve a expectativa de que ganhasse o Oscar de melhor atriz pelo Clint, A Troca. Ficou só na indicação. A Academia, agora, de novo, a avaliza somente em parte – com as indicações técnicas para Invencível. Entre elas, a que habilita o filme a concorrer ao Oscar de melhor fotografia. Roger Deakins é um dos maiores diretores de fotografia do mundo.

A par de sua atividade como atriz – que a levou a ser a mais bem paga do mundo em 2009, 2011 e 2013, segundo a revista Forbes –, Angelina vem desenvolvendo há anos um importante trabalho humanitário. Seu envolvimento com refugiados a levou a integrar o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados como embaixadora da Boa Vontade. Como tal, Angelina visitou zonas de guerra em todo o mundo. Foi essa situação que inspirou seu primeiro longa como diretora, In the Land of Blood and Honey, Na Terra de Sangue e Mel, de 2011, passa-se na Guerra da Bósnia, nos anos 1990. É interpretado por não profissionais e conta a história de amor entre um soldado sérvio e uma prisioneira bósnia.

Por mais defeitos que possa ter, revela um verdadeiro talento de diretora – que Angelina confirma em Invencível. Roger Deakins diz que poucas vezes viu um diretor que dominasse tanto a paleta de cores de um filme. Só que, para Angelina, mais que um filme de ação ou um exercício de estilo, Invencível nasceu como um estudo de personagem. Seu trabalho com o ator Jack O’Connell é prova disso. / L.C.M.

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