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Em 'A Ilha de Bergman', Mia Hansen-Løve homenageia o diretor de 'O Sétimo Selo'

No filme, um casal de cineastas vai a Faro, onde o diretor sueco viveu e filmou, para buscar inspiração

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

24 de fevereiro de 2022 | 05h00

Pouco depois de chegar a Faro, a cineasta Chris (Vicky Krieps), protagonista de A Ilha de Bergman, dirigido por Mia Hansen-Løve, sente-se paralisada, oprimida. Ela está tentando escrever um roteiro, assim como seu marido Tony (Tim Roth), um diretor mais velho e reconhecido. Os dois personagens foram buscar inspiração na ilha que Ingmar Bergman adotou como casa depois de filmar ali Através de um Espelho (1961).

Mas para a cineasta francesa rodar ali não foi nada paralisante ou opressor. “Foi a minha melhor experiência”, disse ela em entrevista ao Estadão, por videoconferência. “Nunca me senti tão realizada. Pode parecer aterrorizante estar ali, onde um grande cineasta viveu e criou. Mas fiquei tranquila.”

E isso porque a filmagem de A Ilha de Bergman, que estreia nesta quinta, 24, no Brasil depois de participar da competição do Festival de Cannes, foi atribulada. O longa, que tem entre seus produtores o brasileiro Rodrigo Teixeira, enfrentou mudanças de última hora – Krieps (de Trama Fantasma) substituiu Greta Gerwig. Mais tarde, John Turturro também saiu, e a diretora levou tempo para encontrar alguém para interpretar Tony. 

Hansen-Løve dividiu a filmagem em dois verões: em 2018, ela rodou o que podia da personagem Chris sozinha ou com outros atores. Também fez a parte em que Mia Wasikowska, como Amy, e Anders Danielsen Lie, como Joseph, participam de um filme dentro do filme, interpretando namorados da adolescência e amantes da juventude que se reencontram em um casamento. Em outro momento, Wasikowska e Lie são também atores. Somente um ano mais tarde, Hansen-Løve rodou as cenas com Tim Roth.

Faro pareceu o cenário perfeito para contar uma história sobre inspiração e sobre um casal. “Bergman nunca perdeu sua inspiração. Ele sempre foi fiel a ela e a si mesmo durante sua vida”, disse Hansen-Løve. “Fora que ele fez muitos filmes sobre casais. Para mim, fazia sentido ir para lá enquanto refletia sobre o que é o cinema para mim e sobre relacionamentos, como encontrar equilíbrio entre ficção e realidade em sua vida como cineasta.”

Milagrosamente, a cineasta disse não ter se comparado demais com Bergman. “Acho que existe um abismo entre ele e eu. Claro que sua obra me impressiona demais e talvez até tenha me influenciado. Mas eu não me coloco no mesmo patamar, até por ser mulher, francesa, não ter a mesma capacidade de criação dele. Essa distância me deu também uma espécie de poder.”

Hansen-Løve manteve sua voz intacta. Se há fissuras no relacionamento de Chris e Tony, elas aparecem de maneira muito mais discreta do que, por exemplo, em Cenas de um Casamento, filmado na casa em que o casal de Hansen-Løve se hospeda. 

Em um dos diálogos, Chris discute como Bergman foi aquele gênio prolífico tendo nove filhos. Uma mulher, diz a personagem, jamais poderia fazer o mesmo. “Essa é uma pergunta que eu me fiz muito: posso ser uma cineasta, não tão grande quanto Bergman, mas com minha própria voz e capaz de me expressar, fazendo um filme sincero, em que me doe tanto quanto ele se doava, sem ser tão egoísta quanto ele?”, disse. “Porque eu não posso ser tão egoísta, simplesmente porque não quero. Eu quero criar meus filhos. Quero encontrar o equilíbrio entre a vida e a criação de outra maneira, sem sacrificar minha vida ou a de meus filhos. Então sempre me pergunto se isso vai me limitar.” 

Ou talvez seja exatamente o contrário. “Será que a experiência com meus filhos na verdade oferece algo a mais para meus filmes?”, indagou a cineasta. “Eu não julgo Bergman. Continuo admirando sua obra e não condeno seu modo de viver. Mas me interessa intelectualmente e talvez espiritualmente encontrar uma maneira de ver as coisas em que eu não tenha de achar meu trabalho menor por ter sido mãe para meus filhos.” 

 

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