Em <i>Dias de Glória</i>, árabes lutam para libertar a França

Foi emocionante assistir, em Cannes,em maio do ano passado, à euforia da equipe de Indigènes,quando o longa de Rachid Bouchareb ganhou o prêmio coletivo deinterpretação masculina. Os atores subiram ao palco do GrandThéâtre Lumière, o diretor os acompanhou e, abraçados, todoschoraram. Indigènes faz um resgate histórico muito importante.Durante a 2.ª Guerra, os árabes vindos de países colonizadospela França no norte da África não eram considerados cidadãosfranceses, ou eram cidadãos de segunda categoria. Apesar disso,milhares deles se integraram ao Exército da França para combatero nazismo. Vítimas do racismo e do preconceito, muitos deram avida combatendo um regime que era a própria expressão do racismoe da discriminação. Bouchareb e seus atores (Jamel Debbouze, Raschdy Zem,Samy Naceri e Sami Bouajila), ao recuperar essa época, nãoestavam apenas corrigindo a história oficial, que tendia aminimizar a luta dos ?indigènes?. O resgate era mais pessoal. Écurioso que o filme, com o título de Dias de Glória, por umdesses azares (ou sortes) da distribuição, tenha sua estréianesta sexta-feira, em que também entra em cartaz A Conquistada Honra, de Clint Eastwood. O filme de Clint chama-se, nooriginal, Flag of Our Fathers. Na França foi batizado comoMémoires de Nos Pères, Memórias de Nossos Pais. O títulocaberia também para Indigènes. Ambos tratam da guerra,resgatam a memória dos pais heróis, nem que seja para discutirjustamente o que é o heroísmo.Roteiro teve 23 versões Numa entrevista por e-mail - indicado para o César, oOscar do cinema francês, e para o próprio Oscar da Academia deHollywood, na categoria de melhor filme estrangeiro, RachidBouchareb desculpa-se por não ter tempo de falar pelo telefone - o cineasta diz que nasceu no 10ème Arrondissement de Paris.Cresceu e viveu na França, é parisiense de berço, mas seus paisviveram o processo de colonização da Argélia. Ele cresceuouvindo histórias de "indigènes", desses estrangeiros (ou assimconsiderados) que lutaram ombro a ombro com seus colonizadorescontra um inimigo que era comum a todos. "Escrevi 23 versões doroteiro", explica o diretor. "Queria contar essa história, que éreal, sobre gente que existiu de verdade e queria que estivesseo mais próxima possível da verdade histórica. Foi uma homenagema esses homens e ao seu sacrifício." Ele aprova o titulo brasileiro. "Por princípio, aprovotodos os títulos que favorecem o contato com o público.Indigènes funciona muito bem na França, mas o públicoestrangeiro não tem referência para saber do que se trata. AchoDias de Glória perfeito." Estar no Oscar é, para ele, genial."É como uma visita ao sol, no momento em que faz tanto frio emParis. Isso aquece o coração. É o reconhecimento de muitotrabalho, um longo percurso cinematográfico e também um espíritoapaixonado de equipe." Bouchareb admite que a rodagem foicomplicada, com muitos momentos difíceis, até por sua busca daexatidão na reconstituição dos eventos e combates. Não poupaelogios ao elenco que ganhou o prêmio de interpretação coletivaem Cannes. "Eles acreditaram o tempo todo no projeto. Nossamotivação era a mesma. Referia-se à nossa raiz, à nossa história que era preciso contar." Dias de Glória (Indigènes, Argélia-França-Marrocos-Bélgica). Dir. Rachid Bouchareb. 14 anos. Cotação: Bom

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