Evan Agostini/Invision/AP
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Em Hollywood, poucos acreditam que acusados de assédio serão castigados

Três anos após o surgimento do #MeToo, uma pesquisa feita em Hollywood conduzida por Anita Hill indica que poucas pessoas dentro do setor cinematográfico acreditam que acusados de assédio sexual serão responsabilizados por suas ações

Jocelyn Noveck, Associated Press

01 de outubro de 2020 | 09h00

O desprestigiado magnata do cinema Harvey Weinstein poderá passar o resto da sua vida na prisão, mas isto não quer dizer que as pessoas que trabalham em Hollywood acreditam que outros acusados de assédio sexual serão também condenados.



Três anos depois que o explosivo escândalo envolvendo Weinstein deu origem ao movimento #MeToo, uma pesquisa da Comissão de Hollywood liderada pela advogada e acadêmica Anita Hill indica que existe uma forte descrença dentro do setor quanto a outros acusados de assédio sexual serem responsabilizados.

“As coisas melhoraram, mas não o bastante”, disse Hill em uma entrevista antes da publicação da pesquisa, na terça-feira. “As pessoas não acreditam que suas denúncias serão levadas a sério e creem que nada vai ocorrer com aquelas pessoas acusadas de abusos. Acham que haverá represálias, sejam vítimas ou testemunhas desses abusos”.

Em outras palavras, como disse uma das 10 mil pessoas que responderam à pesquisa, “só porque alguns poucos delinquentes são responsabilizados quando denunciados por vítimas mais famosas isto não significa que algo mudou para o restante de nós”.

A Comissão de Hollywood foi criada no fim de 2017, pouco depois de as acusações feitas contra Weinstein sacudirem o setor cinematográfico e resultarem num ajuste de contas mais amplo na sociedade contra o comportamento sexual indevido em local de trabalho. Hill, uma batalhadora influente contra o assédio sexual desde que acusou em 1991 o então juiz da Corte Suprema Clarence Thomas, foi nomeada presidente dessa Comissão.

Segundo o grupo, 9.360 pessoas - mulheres e homens de todos os níveis de emprego na indústria - responderam à pesquisa realizada online anonimamente durante um período de três meses, concluída em fevereiro.

Este primeiro de cinco informes foca nas percepções de responsabilidade, e a comissão considerou-o particularmente impactante. Foi também anunciada a criação de uma nova plataforma de denúncias para as vítimas.

Em respostas que Hill qualificou como “impactantes, mas não surpreendentes” diante das milhares de histórias relatadas à comissão, 65% dos entrevistados disseram não acreditar que alguém com poder, como um produtor ou diretor, será responsabilizado por abusar de alguém com menos autoridade.

Ao mesmo tempo, se de um lado 45% dos homens disseram acreditar que essa pessoa será responsabilizada, apenas 28% das mulheres opinaram no mesmo sentido. Os grupos tradicionalmente sub-representados manifestaram menos confiança: entre as mulheres birraciais, por exemplo, a porcentagem foi de 23%.

 

Outros resultados importantes:

 

  • A desigualdade de poder impulsiona a falta de responsabilidade. Menos da metade dos trabalhadores, ou 48%, viram algum avanço ao abordar o abuso de poder desde o surgimento do movimento #MeToo.
  • Poucas pessoas denunciam o assédio ou uma conduta sexual inapropriada porque não acreditam que alguma providência será tomada a respeito. Apenas 23% dos trabalhadores disseram ter feito denúncias ao seu supervisor, e apenas 9% aos departamentos de recursos humanos e 4% ao departamento jurídico da empresa.
  • O temor de represálias contra vítimas ou testemunhas é forte: 41% dos entrevistados disseram ter sofrido represálias por terem denunciado um abuso e outras condutas impróprias.



Hill disse que as informações não eram todas negativas e se sentiu aliviada com o fato de os trabalhadores deixarem muito claro o que necessitam: opções para denunciar um abuso, uma linha telefônica independente onde encontrar ajuda, uma melhor orientação de como usar os sistemas para fazer denúncias, entre outras coisas.

A comissão, que foi criada pela presidente da produtora de filmes Lucasfilm, Kathleen Kennedy, e a advogada Nina Shaw, vem testando uma plataforma na qual denúncias poderão ser feitas e que será lançada no próximo ano, destinada especificamente a detectar acusados de assédio reincidentes especialmente no âmbito da indústria cinematográfica. E também vem analisando um treinamento para testemunhas para quando precisarem intervir num processo.

“Precisamos agir e fazer alguma coisa”, disse Anita Hill. “Temos obrigação de responder”.

Hill, que durante anos foi professora de política social e estudos de gênero na Universidade de Brandeis, tem estudado o problema do assédio sexual na sociedade em geral, mas afirmou que existem fatores específicos no campo da indústria do entretenimento que tornam difícil combatê-lo.

Por exemplo, trata-se de uma mão de obra muito transitória. “As pessoas se locomovem de um sistema para outro”, ou de produção para produção. “Não há um sistema de proteção, existem estruturas muito limitadas para denunciar e nenhuma para troca de informações”.

Além disto, o sistema é naturalmente hierárquico, com muitas pessoas exercendo um grande poder, como foi o caso de Weinstein. “Tudo se baseia em quem você conhece e quem pode ajudá-lo”, disse Hill. “Se você trabalhou com uma pessoa poderosa e... ela espalha rumores ou calunia o seu trabalho, isto tem consequências enormes, e as pessoas sabem disto”.

“Portanto há muitos níveis de abuso de poder. Você pode despedir uma pessoa, influir na sua capacidade de conseguir um outro emprego, ou simplesmente destruir sua reputação”.

Além disto, numa indústria criativa como Hollywood, “a pessoa poderosa é aquela que cria tendências”, disse ela.

Isto quer dizer que os entrevistados não acham que o caso de Weinstein, que cumpre uma pena de 23 anos de prisão por delitos sexuais, teve um efeito dominó?

Não exatamente, disse Anita Hill. “Pessoalmente acho que em qualquer ocasião que alguém é responsabilizado, as pessoas reagem. O número de pessoas dispostas a confiar no sistema aumenta”. Por isto, acrescentou, é tão importante que essas pessoas tenham à sua disposição sistemas eficazes para denunciar.

Segundo a advogada, o que lhe causou mais impacto foi o fato de os participantes da pesquisa “acreditarem realmente nesta indústria. Trabalham no campo do entretenimento porque creem que ele é influente, que pode ser um espelho do mundo, que pode refletir os valores mais elevados e influenciar”.

“Parecem desejar, apaixonadamente, fazer parte desta indústria, mas entendem que há problemas e querem ajudar a resolvê-los”, concluiu a advogada.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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