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Em 'Histórias de Alice', Oswaldo Caldeira viaja nas lembranças da própria família

Boca a boca do público está ajudando a manter o delicado filme em cartaz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2016 | 19h28

Oswaldo Caldeira pertence à histórica geração que, em 1962, fez o curso de cinema que o diretor sueco Arne Sucksdorff ministrou no Rio. Boa parte do Cinema Novo passou por ali. Antes disso, foi crítico – nas Gerais, onde nasceu. Não admira seu interesse pela mítica figura de Tiradentes, que biografou em 1999, com Humberto Martins na pele do inconfidente. Caldeira fez documentários sobre futebol – Futebol Livre, sobre o Canal 100, Passe Livre, sobre o lendário Afonsinho – e Muda Brasil, sobre a campanha de Tancredo Neves à Presidência. Fez ficções – Ajuricaba, O Bom Burguês, O Grande Mentecapto, o citado Tiradentes. E Histórias de Alice, que estreou na quinta, 7, e segue em cartaz para mais uma semana.

Caldeira comemora – “O filme está em poucos horários em São Paulo, não teve mídia. Para se manter, é sinal de que está tendo boca a boca.” O repórter que o diga – assistiu a Histórias de Alice com o público e, no fim, espontaneamente, uma espectadora lhe disse: “Que filme bonito, não?”. Caldeira sente-se gratificado. E o filme é bonito, sim. Alice, a protagonista, é a mãe do cineasta. E ele, que fez tantos documentários, ficcionaliza a história de sua família. A mãe é portuguesa, o pai nasceu no Brasil, mas criou-se em Portugal. É para onde vai um cineasta, Leonardo Medeiros, interessado em contar a história da mãe.

Alice era de família modesta. Apaixonou-se por um homem rico, que aceitou ser deserdado pelo pai para permanecer com ela. A trama desenrola-se em dois tempos. No presente, o cineasta busca informações, enfrenta desconfiança, é enredado por atravessadores desonestos. No passado, o casal envolve-se num crime, do qual são apresentadas duas versões. É uma liberdade poética, ficcional. Não existem provas. Caldeira ama os anti-heróis, o burguês que se envolve na guerrilha, o mentecapto que é uma espécie de Quixote brasileiro. Até seu Tiradentes não é exatamente o da história oficial. “Mineiramente, meus personagens são gauches na vida”, admite, citando Drummond.

A questão é – como se contam as histórias? Até pelo recurso do filme dentro do filme – figura de metalinguagem também presente em A Bruta Flor do Querer, dos estreantes Andradina Azevedo e Dida Andrade –, Histórias de Alice não é um filme realista. É verdadeiro, como provam as fotos nos créditos finais. Seu tom paródico foi, equivocadamente, tratado como artificial por críticos que o destruíram em resenhas superficiais, que revelam completo desconhecimento da trajetória do diretor. São mais de 50 anos desde o início, como crítico, em Minas, e 35 como professor-doutor da Escola de Comunicação da UFRJ. Certa estava a leitora que se deixou, a despeito do distanciamento intencional, tocar pela história e pelos personagens. Leonardo Medeiros é sempre sólido. Os atores portugueses – Ana Moreira, Filipe Duarte, Diana Costa e Silva – são ótimos.

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